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 | Paula Veloso Nutricionista e autora de Dietas sem Dieta e Dieta sem Castigo. |
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| Vantagens e riscos de uma dieta vegetariana (II) |
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| Paula Veloso| 2008-04-23 |
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| Embora na maioria das vezes nos esqueçamos disso, o Homem faz parte do ecossistema terrestre e de uma cadeia alimentar que insiste em subverter. |
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Tal como prometi, o artigo de hoje volta a abordar a alimentação vegetariana.
Embora não seja especialista na matéria, uma vez que a minha formação académica bem como as bases de pensamento que fui adquirindo ao longo do tempo fundamentam toda a minha actuação profissional com base na alimentação mediterrânea (ver artigo A dieta mais saudável do mundo), contava hoje fazer referência a algumas combinações alimentares que permitem, numa dieta ovolactovegetariana, obter todos os nutrientes de que o organismo precisa sem ter que se recorrer a suplementos dietéticos.
Tendo, no entanto, chegado uma carta aberta do Centro Vegetariano, disponível nos comentários do artigo anterior "Vantagens e riscos de uma dieta vegetariana", em que era solicitado que se colmatassem as lacunas alegadamente evidenciadas nesse artigo, não poderia deixar de usar este mesmo espaço para o fazer.
Em primeiro lugar, sou contra toda e qualquer espécie de fundamentalismo, seja religioso, político ou mesmo alimentar, que me dá a faculdade de, com facilidade e pensamento próprio, aproveitar ou rejeitar o que de bom ou mau é veiculado em cada "filosofia". De resto, essa coerência de pensamento tem-me permitido resistir, de forma quase estóica nos tempos que correm, ao constante acenar de "notas" de vários sectores (publicidade, clínicas de estética ou ervanárias, por exemplo), para que ajudasse a impingir às pessoas produtos ou tratamentos nos quais não acredito e assim contribuir para um negócio que muitos consideram mover quantias semelhantes às da indústria petrolífera. Na minha actividade profissional estão incluídas duas associações mutualistas cujos sócios são, na sua maioria, pessoas de fracos recursos financeiros. Como tal, sempre que prescrevo uma dieta, entre muitos outros factores, tenho que ter essa condição em conta. Embora na maioria das vezes nos esqueçamos disso, o Homem faz parte do ecossistema terrestre e de uma cadeia alimentar que insiste em subverter. Por isso, como qualquer ser vivo, é na natureza que tem de obter todos as substâncias necessárias à sua sobrevivência porque foi assim que sempre sobreviveu até ao aparecimento da indústria alimentar e farmacêutica. A afirmação do Centro Vegetariano de que "esse tipo de alimentos ou suplementos já não estão apenas acessíveis nas grandes cidades - até em lojas online se podem encontrar", parece de alguém que desconhece o Portugal profundo e que se habituou a viver entre paredes de betão. Não fiquei por isso muito surpreendida, quando localizei o site desta loja e verifiquei que efectivamente era mais um centro de vendas online de suplementos alimentares como a vitamina B12 e outros "produtos naturais" e em que o aconselhamento alimentar se resume à comercialização de produtos supostamente indispensáveis à saúde, em grande parte dos casos importados, e que não fazem parte da alimentação tradicional. Recorrer a este tipo de produtos representa, para além de uma considerável ginástica financeira, uma despromoção dos recursos locais e nacionais.
Gostaria também de sublinhar que nunca disse que o vegetarianismo era uma moda, mas sim que era uma moda para algumas pessoas. Há 16 anos que na minha consulta tenho contacto diário com pessoas e não são estatísticas ou estudos de quem quer que seja que me fazem deixar de ver cada paciente como uma entidade única e individualizada. Aquilo que tenho constatado é que muitas vezes os jovens mudam radicalmente os seus hábitos alimentares como meio de requererem a atenção dos pais, independentemente de poderem estar até a fazer escolhas mais saudáveis.
Relativamente à soja, que raramente encontramos na sua forma de semente, a não ser em casas "especializadas", e uma vez que a legislação parece começar agora a ser cumprida e fiscalizada, desde que observemos os rótulos e estes não refiram que é geneticamente modificada, podemos comprá-la com alguma segurança em qualquer supermercado, prescindindo da biológica que é seguramente mais cara.
Portugal produz todos os alimentos necessários a uma alimentação saudável sem que seja preciso recorrer a produtos sintéticos para colmatar quaisquer lacunas. Mesmo que a dieta seja ovolactovegetariana! Pecamos normalmente pelo excesso de alguns alimentos como a carne o pelo défice de outros como produtos hortícolas, fruta, leguminosas e frutos secos, por exemplo. Uma alimentação racional, baseada na pirâmide mediterrânea e com base nos recursos locais é, além de saudável, muito mais barata, factor a ter em conta sobretudo em épocas de crise...
Resposta da autora à carta aberta enviada pelo Centro Vegetariano:
Cada um defende aquilo em que acredita e como não reconheço no veganismo uma forma de alimentação equilibrada e fácil de praticar, quando me aparece alguém a solicitar uma dieta desse tipo (o que aconteceu uma ou duas vezes em 16 anos de consulta), o meu conselho é que recorram à Internet e que contactem pessoas que a pratiquem. Neste momento, e uma vez que sou uma pessoa de boa-fé, acredito que se o Centro Vegetariano reagiu é porque se sentiu atingido nos seus valores e princípios, e, como tal, posso acreditar que constitua uma excepção à regra no mercado dos produtos ditos naturais. Por isso, daqui para a frente, sempre que me aparecer alguém a solicitar uma dieta deste tipo poderei mesmo sugerir que contactem este Centro. Por sua conta e risco, uma vez que desconheço a formação em nutrição das pessoas que aí trabalham.
Não tenho, nem nunca tive, qualquer problema em prescrever dietas ovolactovegetarianas porque com elas se pode conseguir uma alimentação saudável (muito mais saudável do que muitas dietas omnívoras) e equilibrada sem recorrer a suplementos. Mas, para mim, prescrever uma dieta vegan seria como, se fosse católica, ensinar o islamismo aos meus filhos. |
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Carta aberta (II)
Na sequência do v/ segundo artigo sobre "Vantagens e riscos de uma dieta vegetariana", cumpre-nos tecer os seguintes comentários:
Em geral: - Sendo conhecido que a formação académica tradicional de nutricionistas e médicos é deficiente no que toca à alimentação vegetariana, poucos têm a grandeza de espírito necessária para escrever publicamente que "não são especialistas na matéria" - e neste ponto havemos de felicitar a Drª Paula Veloso pela idoneidade e honestidade intelectuais e profissionais que assim demonstra. - Quanto à questão dos custos alimentares, a doutora certamente conhecerá freegans, hippies e muitos indigentes que seguem dietas veganas ou vegetarianas equilibradas. Mas mesmo que não conheça, com certeza há-de concordar que uma alimentação baseada em produtos de origem animal só artificialmente, ou em casos excepcionais, pode resultar mais económica do que uma baseada em produtos de origem vegetal. A dieta vegetariana tem menos um elo na cadeia alimentar. Esse elo intermédio será sempre uma perda de energia, que torna o sistema menos eficiente e menos ecológico. Num mercado perfeitamente eficiente, sem subsídios ou outras (des)regulações, a dieta com produtos de origem animal é inevitavelmente também mais cara. Em termos práticos, já na actualidade qualquer vegetariano minimamente informado tem condições de fazer, sem grande esforço, uma alimentação equilibrada, mais barata do que a tradicional dieta omnívora. - Quanto a fundamentalismo, parece-nos fútil discutir o que é mesmo ou quem nele se enquadra. Mas adiantamos que o Centro Vegetariano é mantido com o esforço voluntário de colaboradores Veganos, Vegetarianos, Flexitarianos, Macrobióticos e Semi-Vegetarianos.
Sobre o Centro Vegetariano: - O projecto foi lançado em 2001, como portal de divulgação do Vegetarianismo. Vocacionado fundamentalmente para a Internet, é juridicamente uma Associação Ambiental, instituição sem fins lucrativos e mantida pelo esforço voluntário dos seus sócios, colaboradores e amigos. - Quanto ao nosso "conhecimento do Portugal profundo", adiantamos que a Associação tem sede em Oliveira do Hospital e reúne colaboradores activos residentes em diversos pontos do país e do estrangeiro - desde montes alentejanos ao Reino Unido, de Aveiro à Suíça. Contamos com médicos, professores e outros intelectuais activos, da mesma forma que contamos com estudantes, desempregados e funcionários de Associações Humanitárias. - Embora o Centro tenha tido origem em 2001, a loja foi lançada apenas em 2005, para permitir fornecer à comunidade produtos difíceis de encontrar em Portugal, a maior parte deles não rentáveis para empresas. Os lucros da loja custeiam as despesas de funcionamento do projecto e oferta de ração Vegetariana a Associações que recolhem animais abandonados. - Quanto aos suplementos vendidos na loja online, existe apenas um, de Vitamina B12, num total de 281 referências de produtos. Se o facto de 0.356% das referências serem suplementos tornam uma loja "um centro de vendas online de suplementos", é coisa que nos parece irrelevante discutir. - Infelizmente não é fácil encontrar marcas portuguesas de produtos veganos, mas existem alguns, que privilegiamos, quanto mais não seja por ser mais ecológico consumir localmente. Assim, encontra na loja do Centro produtos tão exóticos como comércio justo da América Latina, e tão nacionais como marcas outrora fulgurantes no país e que o mercado se encarregou de (quase) fazer desaparecer, ou mesmo artesanato ecológico "made in Portugal". Finalmente, e para terminar, sublinhamos que, entre muitos outros recursos, o sítio online do Centro Vegetariano conta com 452 artigos informativos, lista de restaurantes, lista de lojas, tabela de nutrientes, 616 receitas, fórum, chat, portal de anúncios classificados, etc., etc. Com excepção obviamente dos produtos da loja, tudo grátis, graças ao trabalho voluntário de muitas pessoas ao longo de sete anos. Se "o aconselhamento alimentar se resume à comercialização de produtos supostamente indispensáveis à saúde", fica para quem quiser conhecer. Da nossa parte, agradecemos a publicação desta carta aberta, à luz do direito de resposta. E se a Drª Paula Veloso quiser conhecer também, convidamo-la não só a juntar-se às 4500 pessoas que diariamente visitam a nossa página web, como, se quiser facultar ao Centro Vegetariano um contacto pessoal, lhe enviaremos um convite personalizado para participar no próximo piquenique de colaboradores do Centro. Com uma única condição: traga, para partilhar, comida vegana, abertura de espírito e boa disposição. É assim que pretendemos dar a nossa modesta contribuição para construir um mundo melhor, mais ecológico, ético e... saudável.
Cristina Rodrigues, Presidente da Direcção e directora do website
Centro Vegetariano - Associação Ambiental para a Promoção do Vegetarianismo
07.05.2008
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