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Sexta-feira, 30 de Julho de 2010
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Educação
Armanda Zenhas Mestre em Educação, área de especialização em Formação Psicológica de Professores, pela Universidade do Minho. É licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, nas variantes de Estudos Portugueses e Ingleses e de Estudos Ingleses e Alemães, e concluiu o curso do Magistério Primário (Porto). É PQND do 3.º grupo da Escola EB 2,3 de Leça da Palmeira e autora de livros na área da educação. É também mãe de dois filhos.
Ainda vale a pena ser professor?
Armanda Zenhas| 2007-01-03
Com uma classe docente desvalorizada e maltratada, longe vão os tempos em que os professores "brilhavam" e em que a escola era considerada uma "fonte sagrada".
A escola é fonte sagrada
De sacrossanta bebida
Bebei todos desta fonte
Na primavera da vida

Nas Horas Vagas, Joaquim Moreira da Silva

Assim valorizava a escola e a profissão docente o poeta popular Joaquim Moreira da Silva, nascido em 1886 e falecido em 1960. Não tendo podido ir à escola em criança, por precisar de trabalhar desde pequeno, frequentou um curso nocturno aos 18 anos, após o que leu avidamente e adquiriu uma vasta e diversificada cultura. A leitura merecia-lhe uma grande admiração e proclamava que:

As letras do alfabeto
Sabendo nós compreendê-las
Dão-nos luz, muito mais luz
Do que todas as estrelas.

Nas Horas Vagas

Sobre os professores, que distinguia como profissionais de grande importância, afirmava que eles "Brilham à luz da razão".

Longe parece terem ficado os tempos em que aos professores era reconhecido grande mérito social. A desvalorização social da profissão docente tem vindo a agravar-se e o ano que recentemente terminou marcou fortemente a degradação da sua imagem.

Preguiça, incompetência, oportunismo, falta de profissionalismo, fuga ao trabalho são algumas das características que as mensagens provenientes do Ministério da Educação foram deixando passar para a opinião pública. Das várias ideias que foram lançadas ou reforçadas, retomarei duas: os professores trabalham poucas horas, os professores são os responsáveis pelo abandono escolar dos alunos. Deixarei de parte, por agora, a ideia gravíssima e incorrecta de que os professores são os únicos responsáveis pelo insucesso escolar.

Omitindo que os professores precisam de preparar as suas aulas, de estudar continuamente para aprofundar os seus conhecimentos da matéria que ensinam e de outras áreas fundamentais ao exercício da sua profissão, de corrigir trabalhos e de realizar um sem-número de outras tarefas fora das aulas, o Ministério da Educação foi reforçando a ideia, previamente existente na opinião pública, de que os professores trabalham pouco, limitando-se a "dar umas horitas" de aulas. Assim surgiram as aulas de substituição, bem mais desgastantes do que uma normal, no tempo de redução da componente lectiva que, devido à idade, ia sendo atribuída por reconhecimento do desgaste que a profissão acarreta. Assim se vão já levantando vozes sobre a ocupação dos professores nas interrupções lectivas do Natal, do Carnaval e da Páscoa (como se não estivessem sobejamente ocupados na preparação e realização de reuniões de avaliação e na preparação do período escolar seguinte).

Quanto às aulas de substituição, elas padecem de uma indefinição terminológica. Quando se fala com pais e encarregados de educação, trata-se efectivamente de aulas, para que saibam que os seus filhos estão ocupados com aulas sempre que estão na escola. Quando se fala com professores, não existem aulas de substituição que, por artes mágicas, se transformam em actividades de substituição, para poderem fazer parte da componente não lectiva. Não questiono as vantagens da ocupação plena dos alunos, mas tão-só a forma como ela se tem vindo a efectuar e a desvalorização da imagem dos professores - pouco trabalhadores - que ela traz implícita.

Quanto ao abandono escolar, a responsabilidade exclusiva dos professores neste grave problema é afirmada pelo Ministério da Educação ao apontá-lo como critério a ter em conta na avaliação dos docentes. A minha experiência mostra-me que o facto de o abandono escolar não ser maior deve-se à intervenção de professores e de outros profissionais, como, por exemplo, os psicólogos escolares, que ultrapassam as suas funções e desdobram-se em esforços para conseguirem levar muitos alunos à escola, realizando, por vezes, verdadeiros "milagres". Deparam-se esses profissionais com famílias completamente desestruturadas pela miséria, pelo desemprego, pela doença, pela prisão de pais e/ou irmãos, pela droga e por outros flagelos e lutam contra a falta de apoios institucionais e sociais. Noutros países, existem medidas de apoio às famílias e os pais são responsabilizados pela assiduidade dos filhos, sendo tomadas medidas para que exerçam as suas funções parentais. No nosso país, essa responsabilidade sobra para os professores.

Estes são alguns dos aspectos da desvalorização da profissão docente que marcou o ano de 2007. Outros, bem mais graves, caracterizam o estatuto da carreira docente que o Ministério da Educação aprovou solitariamente, contra todos os sindicatos e contra os milhares de professores que se manifestaram das mais diversas formas. O ano de 2007 começa de uma forma nada auspiciosa para a educação em Portugal. Com uma classe docente desvalorizada e maltratada, longe vão os tempos em que os professores "brilhavam" e em que a escola era considerada uma "fonte sagrada".

Ainda vale a pena ser professor? Mesmo para quem gosta muito da profissão (como é o meu caso), vai sendo cada vez mais difícil conseguir encontrar argumentos positivos para colocar no prato "sim" da balança em contraponto aos sucessivos e rudes golpes que a profissão tem vindo a sofrer e que a fazem inclinar para o prato do "não". Por mim, ainda consigo incliná-la para o "sim", mas... por quanto tempo?
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COMENTÁRIOS DE UTILIZADORES
Vale a pena sim!
Fiquei muito feliz com o seu artigo. Aqui no Brasil ninguém levanta a voz em nosso favor, principalmente os chamados "especialistas em educação". É muito bom saber que pelos ai em Portugal nem todo mundo é cego, surdo ou mudo para a situação do magistério. um beijo do Brasil
Maria Elvira Alves dos Santos Tia Elvira, Rio de Janeiro
22.11.2007
Vale a pena ser professor?
Deus me livre, que o meu filho pense em ser professor, num País que não merece ter professores. Num país onde metem alunos nos cursos em universidades estatais e o próprio estado fomenta o desemprego, num país tão pequeno que não se sabe governar... O meu grupo meteu professores noutro tempo, «às carradas» e actualmente, não aumenta a rede, pensando somente em privatizar. Em que a «privatização», já chegou ao próprio estado... Penso que o que os portugueses, verão no futuro, será sempre para pior. E só teremos o que merecemos. Quem quer ter professores, tem que os pagar! E bem...Certo?
Maria Luisa Caeiro de Mira Barrigó Cabaço, Évora
04.07.2007
Vale a pena ser professor?
Deus me livre, que o meu filho pense em ser professor, num País que não merece ter professores. Num país onde metem alunos nos cursos em universidades estatais e o próprio estado fomenta o desemprego, num país tão pequeno que não se sabe governar... O meu grupo meteu professores noutro tempo, «às carradas» e actualmente, não aumenta a rede, pensando somente em privatizar. Em que a «privatização», já chegou ao próprio estado... Penso que o que os portugueses, verão no futuro, será sempre para pior. E só teremos o que merecemos. Quem quer ter professores, tem que os pagar! E bem...Certo?
Maria Luisa Caeiro de Mira Barrigó Cabaço, Évora
04.07.2007
Não
Resposta à pergunta: NÃO.
Pedro Valente, Lisboa
12.03.2007
Serão todos docentes? 3
Eu... ia-me passando, e respondi ao (pseudo)colega que privacidade só se for no PC da casa deles, na escola estão para trabalhar e não para terem privacidade. É triste ter de dizer isto a um indivíduo com 10 anos de serviço. Na minha opinião? Era um "biqueiro" no traseiro e rua!
Amélia Pereira, Faro
04.01.2007
serão todos docentes? ParteII
Recordo-me daquele "colega" que se opôs à mudança de disposição dos computadores da sala de informática argumentando que assim, (os PCs estavam de costas para o professor que tinha dificuldade em evitar que os alunos se distraíssem na Net) lhe dava mais jeito pois (e passo a citar): "tenho alunos complicados e não quero cá ver o que eles fazem nos computadores. É melhor deixá-los como está e na acta da reunião vamos colocar que, por uma questão de privacidade dos alunos, não se deve alterar a disposição dos computadores".
Amélia Pereira, Faro
04.01.2007
...e serão todos docentes?
Sou das que concordam com o que já tem sido exposto sobre a desvalorização da classe docente. Porém, por vezes, pergunto-me... será que todos são mesmo professores? Defendo igualmente que existem casos (embora não maioritários) de cidadãos que são professores mas nunca o deviam ter sido.
Amélia Pereira, Faro
04.01.2007
Profissão Indigna!
De facto, a nossa classe profissional nunca foi tão vilipendiada como agora. Tal como outros colegas o têm dito, já lá foi o tempo em que o Professor era reconhecido com a dignidade que merece. Neste momento, nunca digo a ninhguém que sou Professor. Quando tenho de indicar a minha profissão, simplesmente menciono a formação académica (Geógrafo)
Joao Daniel Gomes Luis, Funchal
04.01.2007
Os cães passam e a caravana...
Concordo com tudo que a colega Armanda diz. Isto faz-me pensar em "deja vu", pois a Inglaterra fez o mesmo na decada de 80 e agora tem que recorrer professores de outros países pois os que lá estão não "chegam para as encomendas". O que vai acontecer ao nosso país é o seguinte. Os poucos que entraram para cursos via ensino, os muitos que não conseguiram contrato de trabalho no ramo de ensino terão que optar por outra profissão e como estes têm "dois dedos de testa" não é preciso muito para ganhar 1000¿ por mês. Ou então, como diria o Passos Dias Aguiar de Mota num outro forum ( http://www.educare.pt/EE_Forum_R_novo.asp?F=94&M=113400&Tema=Concurso+de+docentes+2005%2F2006 ), mais vale ser empregada doméstica. Boa sorte e muita força a quem ainda quer ser professor...
Rui Barroso, Braga
04.01.2007
O último que feche a porta
Concordo inteiramente. Estou a trabalhar afincadamente para abandonar esta profissão o mais depressa possível.
Passos Dias Aguiar Mota, Porto
04.01.2007
Resposta
Não vale a pena ser professor (pelo menos no ensino não superior). A nível profissional, o que mais desejo é mudar de profissão.
Ana Maria Azambuja F C Pereira Crespo, Lisboa
04.01.2007
É urgente dignificar a classe
Concordo plenamente com o conteúdo deste artigo. Mas permita-me a cara colega, autora do mesmo, dizer que falta muita união na nossa classe! Com efeito, se TODOS os docentes deste país unissem esforços no sentido de lutar por maior dignidade e respeito pela profissão por parte da opinião pública e, principalmente, por parte daquela senhora a quem chamam Ministra da Educação, por certo teríamos melhores condições de ensino em Portugal. É certo que em todas as profissões há de tudo um pouco ( "os que fazem porque gostam", "os que fazem porque sim" e "os que fazem porque tem que ser"!), mas se os Pais e Encarregados de Educação se vissem sem ter onde deixar os seus filhos e educandos devido a uma mobilização nacional de greve de professores, talvez percebessem que ainda temos alguma influencia no sistema. Pena é, que não se consiga a mobilização maciça.
Francisco José Amado Rodrigues, Condeixa-a-Nova
04.01.2007
Por onde vou? Não por aí...
Faculdade.Primeiras opções."Que fazes tu com a tua vida?".Nunca respondi.2 anos pós-licenciatura.Pelo menos num ano estaria a fazer o que sempre quis (Como as coisas mudam!Hoje já não seria o mesmo-e parece tão longe quando oiço e vejo certas realidades de agora).Alguém me fez a mesma pergunta "Que andas a fazer tu da tua vida?".Os olhares,comentários,avisos de quem gosta de mim não me demoveram de me tornar o que escolhera aos 5 anos.Não chumbei ano algum, frequentei escolas e uma universidade públicas e sempre que o quis dei o meu melhor em troca do prazer de saberes ou conhecimentos.O objectivo era chegar ao que sou e sê-lo da melhor forma possível.O sonho não terminou.É vivido agora a cada dia e parece ganhar ainda mais força.Só espero continuar a ter esta benção.Tenho a sensação que se assim não for enlouqueço.E sempre que alguém me pergunta o que faço respondo que sou professora com o mesmo olhar brilhante com que entrei na minha 1ª aula.E sempre me respondem "Coitada!"...
Catarina Inverno
03.01.2007
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