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Milagre de Mundo
Marta Rangel| 2006-11-22

Dyvosvit ou "Milagre de Mundo" é o nome de uma escola criada pela comunidade ucraniana há quase dois anos. Para que os seus hábitos e cultura não sejam esquecidos, reúnem-se ali, todas as semanas, 14 professores e 150 crianças.

Ao sábado é dia de descanso, pelo menos para as crianças. Mas não há regra sem excepção. E mesmo após cinco dias de aulas nas escolas portuguesas, os meninos e meninas da comunidade ucraniana ainda têm vontade de estudar.

"O nosso ensino é muito difícil", explica Olesya Nazarenko, directora da escola. "Não quero dizer que nós somos os melhores do mundo, mas na Ucrânia temos, desde pequeninos, um método de aprendizagem muito exigente. Desde os 3 anos eles aprendem poesia e inglês."

Na Dyvosvit lecciona-se desde o ensino pré-escolar ao 10.º ano. Catorze professores dão aulas de Geografia, História, Música, Educação Física, Química, Biologia, Matemática, Álgebra, Geometria, entre outras. Todos os professores procuram ser exigentes e, em vez de reclamarem ou demonstrarem cansaço, a maioria das crianças reage bem: "Eles andam na escola portuguesa durante a semana e têm trabalhos de casa. Nós, aqui, também mandamos muitos trabalhos de casa e 90% dos alunos fazem tudo".

O entusiasmo, tanto de professores como crianças, é visível. Durante o período de aulas, reina um silêncio exemplar. Pouco ou nenhum movimento é registado nos corredores. Assim que a campainha toca para o intervalo, os alunos comportam-se como crianças e adolescentes que são: correm, saltam, brincam, jogam à bola, vêem se o telemóvel recebeu alguma chamada ou mensagem... Mas, assim que se volta a ouvir o toque de entrada, correm de novo para o interior das salas. Numa fracção de segundos. Não existem idas de última hora à casa de banho, ninguém fica no bar a acabar de comer e muito menos no corredor a brincar. Ao que tudo indica, correm por gosto.

Na Dyvosvit, a exigência tem razão de existir. Procura-se ensinar todas as disciplinas existentes nas escolas da Ucrânia de forma que seja possível pedir equivalência quando as famílias quiserem regressar ao país de origem. Segundo Olesya Nazarenko, já houve tentativas de tornar esta escola legal, mas, até à data, "ainda não houve resposta do Ministério".

Em Portugal, a escola Dyvosvit já recebeu apoio do Alto-Comissariado para a Emigração e Minorias Étnicas (ACIME) do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). "Nós enviámos um pedido para eles nos darem algum dinheiro para comprar livros, mapas e outras coisas para a escola", explica a directora. Apesar de todos os professores serem voluntários, manter aberta uma escola ao sábado comporta algumas despesas: para além de ser preciso pagar renda, existem também uma enfermeira e um porteiro ali presentes que, naturalmente, recebem ordenado. Feitas as contas, Olesya aponta uma estimativa: "Ainda não sei ao certo o valor deste ano, mas deve ser mais de 500 ou 600 euros." A escola Dyvosvit optou por não ter uma propina fixa porque o mais importante, neste momento, é pagar as despesas. O valor total é simplesmente divido por todos os pais.

A escola foi criada em Março de 2005 a pedido de várias famílias. Tal como explica Olesya, a passagem de tantos ucranianos por Portugal pode ser transitória, por isso, há que fazer com que as crianças não esqueçam as suas origens: "Nós estamos aqui para ganhar dinheiro e, um dia, temos de voltar para o nosso país. Mas, tal como todas as outras nacionalidades, nós também queremos que os nossos filhos saibam, para toda a vida, a nossa língua materna, a nossa cultura e as nossas tradições." Com a vontade de vários professores e o apoio de duas associações (a Associação dos Ucranianos em Portugal e a associação SOBOR) começaram com, apenas, 17 alunos. Hoje são 150 e, segundo a directora, "a cada dia entra mais algum".

As famílias vieram para Portugal à procura de melhores condições de vida. Olesya Nazarenko quando chegou, há seis anos, nem sequer conhecia a língua ou as leis do país. Veio com o marido e a filha, ainda bebé. Arranjou trabalho num armazém de uma fábrica, onde ainda trabalha, mas confessa que passa "a semana toda a pensar nas aulas" que vai dar no sábado.

"Porque isto é mesmo nosso" - justifica a directora da Dyvosvit. "No início, éramos tão poucos dos países de Leste", recorda. "Mas, agora, já temos associações, programas na rádio, um jornal, a comunidade, esta escola... coisas que nunca pensámos ter!". Por isso, Olesya não pensa em regressar à Ucrânia: "A minha filha anda na escola portuguesa desde o princípio. Não quero voltar para a Ucrânia e obrigá-la a fazer essa deslocação. Mesmo para a cabecinha dela. Eu quero que ela continue aqui até ao 12.º ano, aprenda e escolha uma profissão. Se estivesse a correr mal aqui, eu voltava, mas como está a correr bem... Nós já conseguimos construir um sítio para nós como deve de ser e, se voltássemos à Ucrânia, tínhamos de começar tudo de novo. Para mim não quero. E acho que as minhas colegas também estão aqui muito bem."

Daqui para a frente, só pensam no futuro em Portugal. A escola Dyvosvit já mudou algumas vezes de instalações. Agora, funciona na Escola Pedro de Santarém, em Benfica. Se tudo correr bem, depois de obter autorização da escola, Olesya Nazarenko gostaria de abrir aulas de ucraniano para portugueses. Até porque, na sua própria casa, já vive com `uma portuguesa': "A minha filha já pensa como uma portuguesa, não pensa como um ucraniano. Não sei como explicar a diferença, mas eu noto" - conta, entre risos. "As minhas sobrinhas têm outro pensamento. São os mesmos assuntos, mas vêem-nos de maneira diferente. Mesmo na maneira de viver."
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