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Motivação dos professores diminuiu nos últimos três anos
Sara R. Oliveira | 2012-07-25
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Estudo da Universidade do Minho revela que o excesso de burocracia, a falta de reconhecimento da profissão, as constantes alterações legislativas e o congelamento da carreira têm contribuído para uma diminuição da realização profissional da classe docente.
A motivação dos professores tem vindo a diminuir nos últimos três anos. Os resultados preliminares do Projeto TEL (Teachers Exercising Leadership - Os Professores e o Exercício da Liderança), projeto de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), colocam os números em cima da mesa. Os 2702 professores inquiridos nesse estudo, que surge no âmbito do Centro de Investigação em Estudos da Criança do Instituto de Educação da Universidade do Minho, garantem que a motivação não se tem mantido constante: 45,5% respondem que neste momento a motivação é moderada, 27,4% elevada, 17,4% baixa, 5,9% muito baixa e 3,8% muito elevada. No entanto, 61,1% admitem que, ao longo dos últimos três anos, a motivação diminuiu e 44,5% dizem que a realização profissional também decaiu. A autoestima, o empenho e a confiança mantêm-se.

O Projeto TEL envolve investigadores da Universidade do Minho e conta com a participação de David Frost, da Universidade Cambridge, Reino Unido, como consultor. O objetivo último da pesquisa, que ainda decorre, passa por "promover e desenvolver o profissionalismo docente através do exercício da liderança". O estudo faz o devido enquadramento. "A liderança do professor envolve não apenas a liderança do ensino e da aprendizagem na sala de aula, mas também o desenvolvimento de inovações e a construção de conhecimento profissional dentro e para além da sala de aula e da escola." "A liderança não se centra, portanto, apenas no desempenho de papéis, responsabilidades e estruturas, mas diz respeito ao modo como os professores fazem a diferença nos seus contextos profissionais através da agência e da participação em iniciativas inovadoras na escola", acrescenta.

Os docentes inquiridos garantem que a burocracia no ensino tem aumentado nos últimos três anos: 79,7% concordam totalmente com a premissa, 15,7% concordam e apenas 0,5% discordam totalmente. O volume de trabalho também tem aumentado: 76,8% concordam totalmente com a afirmação e 19,9% concordam. Além disso, a maioria considerou que a crítica em relação aos professores se tem acentuado: 64,2% concordam totalmente e 28% concordam. O que também está a aumentar é o controlo sobre o trabalho dos professores: 40,2% concordam e 35,4% concordam totalmente. Em relação ao individualismo no trabalho dos professores, embora a maioria admita que tenha aumentado nos últimos três anos, regista-se uma maior dispersão das respostas com 22,8% a concordarem totalmente e 20,3% a discordarem.

Entre fevereiro e maio deste ano, 2702 professores responderam ao inquérito colocado online, representando várias direções regionais de educação (DRE) - 41,1% da DRE do Norte, 26,5% da DRE de Lisboa e Vale do Tejo, 18,7% da DRE do Centro, 7% da DRE do Algarve e 6,7% da DRE do Alentejo. Ao todo, 78,5% do sexo feminino e 21,5% do sexo masculino. A maioria dos inquiridos é licenciada (59,3%), 21,4% possuem o grau de mestre e 15,6% uma pós-graduação. Os inquiridos trabalham em todos os níveis de ensino, com predominância para o 3.º ciclo (41,9%) e secundário (33,2%).

O que mais tem contribuído para a realização profissional nos últimos três anos? As TIC, a menor distância entre o local de trabalho e a residência, o interesse dos encarregados de educação, a formação contínua, o trabalho colaborativo, os projetos de escola, o sucesso escolar dos alunos, a articulação com outros níveis de ensino e o desempenho de cargos e funções na escola são os motivos mais referidos pelos professores. Do lado contrário, estão vários fatores: o excesso de burocracia, a falta de reconhecimento da profissão, a avaliação de desempenho, as alterações legislativas constantes, o congelamento da carreira, a falta de tempo, o aumento e a intensificação do volume do trabalho docente, a redução do salário, a indisciplina dos alunos, o excesso de alunos por turma, o desinteresse da classe estudantil, o modelo de gestão e a constituição de mega-agrupamentos. Neste momento, estes dados estão a ser alvo de uma análise estatística mais aprofundada. Paralelamente, está em fase de concretização a segunda etapa de recolha de dados junto de uma amostra de professores através de entrevistas individuais, bem como o estudo pormenorizado do que se passa em cinco escolas. Os resultados serão divulgados no final do próximo ano.

Falta de tempo para discutir práticas
Maria Assunção Flores, investigadora responsável pelo Projeto TEL, refere que "a instabilidade legislativa que se tem vivido no campo da educação, a par da burocracia e da obesidade e rigidez curriculares, é um dos aspetos que têm contribuído para este decréscimo de motivação e realização profissional". As políticas educativas estão em constante mudança. A instabilidade pode ter causado danos irreparáveis? "De facto, a profusão legislativa neste setor e as mudanças constantes podem provocar instabilidade, confusão e desmotivação", afirma.

A colaboração com os colegas é uma das dimensões do trabalho que os professores consideram como a mais importante, com 63,5% das respostas. No prato da balança com mais peso, seguem-se o apoio aos alunos com 58,7%, a reflexão sobre o trabalho desenvolvido com 51,1%, a planificação letiva com 49,1% e a aprendizagem profissional contínua com 45,1%. Como dimensões menos importantes, surgem a dinamização de equipas de trabalho (18,7%), a utilização das TIC (19,7%), a participação na tomada de decisão (19,7%), a comunicação com os pais (25,8%) e o acesso a recursos didáticos (27,6%).

O estudo faz também perguntas sobre a participação em ações de formação. Os professores inquiridos revelam quais as principais motivações para se inscreverem nessas atividades. Em primeiro lugar, surge a vontade de melhorar a prática (83,1%), e logo depois o aprofundar conhecimentos profissionais (81,1%), o desenvolver estratégias de ensino inovadoras (60,5%), o partilhar ideias e experiências com colegas (52,4%) e progredir na carreira (47,4%). Desenvolver a capacidade de liderança é o motivo apresentado por apenas 6,3% dos professores entrevistados em relação à participação em ações de formações. Aumentar a autoestima é a resposta dada por 14,1% e refletir sobre os valores que estão subjacentes ao papel da escola por 13,2%.

Os professores manifestam uma certa indefinição quanto ao encorajamento para exercer funções de liderança. Nesta parte, 20,5% discordam que nos seus departamentos sejam encorajados para desempenhar funções de liderança - apenas 5,8% concordam totalmente e 28% concordam. Por outro lado, 42,9% dos inquiridos discordam que haja tempo para discutirem as suas práticas com os colegas, enquanto 49,4% concordam que, nos seus departamentos, os professores refletem sobre as suas práticas. E são encorajados a tomar decisões sobre como ensinar? Nesta questão, 34,8% garantem que isso acontece, 7,9% dizem que não e 33,2% não têm uma opinião definida, ou seja, nem concordam nem discordam.

Ao longo dos últimos três anos, os inquiridos referem que a sua confiança na capacidade de influenciar a aprendizagem e os resultados dos alunos, a responsabilidade pelo sucesso dos alunos e o seu envolvimento na vida da escola se mantiveram, enquanto outros admitem que aumentaram. No entanto, estas perceções mais positivas são contrariadas pelas respostas obtidas nos itens de motivação para desempenhar novos papéis relacionados com projetos na escola e sentimento de pertença à escola, onde, embora admitam que se mantiveram, uma percentagem importante refere que diminuíram ao longo dos últimos anos.

Relativamente ao trabalho relacionado com a escola enquanto local de trabalho, os inquiridos manifestam, em geral, perceções positivas, nomeadamente quanto à informação e formação adequadas de que dispõem para elaborar e implementar projetos na escola, quanto ao trabalho em conjunto na planificação das atividades da escola, quanto à informação sobre as políticas, projetos e atividades da escola/agrupamento, e ainda quanto ao facto de partilharem ideias e materiais pedagógicos e de trabalharem colaborativamente.

Os professores manifestam uma perceção muito negativa perante a exposição pública, admitindo que a informação veiculada nos meios de comunicação social tem diminuído o prestígio da profissão docente: 59,4% concordam totalmente e 30,6% concordam. Por outro lado, admitem que atualmente há mais oportunidades de colaboração entre a escola e as instituições locais e de desenvolvimento de trabalhos e projetos com outros parceiros.
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