O Portal da Educação
arquivo | registo | faça do educare a sua homepage pesquisar
Início Atualidade Opinião Fóruns Agenda Legislação Outras informações Educare TV
Notícias
Filosofia estimula alunos do 2.º ciclo
Sara R. Oliveira | 2010-02-08
Partilhar:
Os alunos mais novos da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, em Espinho, discutem a verdade, a justiça, o bem e o mal. Os argumentos são debatidos e o espírito crítico aguçado.
"Eu sei como é que o filósofo Sócrates morreu", diz Guilherme, de 10 anos, à professora à porta da sala, antes de a aula começar. A turma do 5.º B da Escola Secundária Dr. Manuel Laranjeira, em Espinho, prepara-se para mais 45 minutos de Filosofia, área curricular não disciplinar. Carla Pereira, a professora, escreve no quadro o sumário do dia: "Leitura do texto sobre 'a morte de Sócrates'. Discussão e avaliação dos argumentos sobre 'a obrigação perante a lei'". Bernardo, o aluno que numa aula anterior falou na célebre frase "só sei que nada sei", começou a ler o texto que será analisado nas próximas aulas.

"Esta será uma lição diferente. Não há cenários, personagens ou diálogos. Há um filósofo perante um dilema pessoal - a sua condenação à morte". A introdução aguça o apetite. A discussão começa. Guilherme aproveita para anunciar que Sócrates morreu envenenado, por cicuta, segundo viu num concurso televisivo, na resposta à questão como morreu Sócrates. É hora de "espremer" o texto e argumentar. "Os políticos não concordavam com o que ele discutia sobre a verdade, a justiça, a beleza e o conhecimento", avança Beatriz. Gonçalo acrescenta: "os políticos tinham inveja de Sócrates".

Maria João introduz uma questão importante com uma pergunta. "O facto de Sócrates ser obrigado a beber veneno tem a ver com a sua obrigação perante a lei?". "Porque não fugiu?", questiona Rúben. Nuno está indeciso. Por um lado, acha que o filósofo grego deve cumprir a lei que tanto apregoa, por outro, considera que a morte é uma condenação demasiado pesada. "Ele defende tanto a lei que não pode fugir, mas também vai morrer...". Jorge tem uma opinião clara: "Não é cobardia fugir da morte". A professora lança mais uma pergunta para a turma: Estamos sempre obrigados a cumprir a lei? "Sim, mas nem sempre cumprimos...", responde Nuno. O tema da morte de Sócrates vai continuar a ser debatido nas próximas três, quatro aulas. Até chegar-se à última questão: "E tu, o que farias se estivesses no lugar de Sócrates?".

Desde o ano letivo anterior que o conselho executivo da escola de Espinho decidiu ocupar os 45 minutos que pode gerir com Filosofia no 2.º ciclo. Neste momento, quatro turmas do 5.º ano de escolaridade e uma do 6.º têm uma aula por semana. O convite surpreendeu Faustino Vaz, professor de Filosofia do Secundário, que o aceitou de imediato como mais um desafio. O projeto caiu-lhe nos braços e teve de criar tudo de raiz, depois de muitas horas de pesquisas. "Não há experiência no ensino de Filosofia para estas idades", lembra.

Era necessário criar uma estrutura didática adequada e definir quais os problemas filosóficos a abordar com os alunos mais novos da escola. Não foi fácil partir do zero, mas Faustino Vaz acabou por optar pelos problemas de ética e de filosofia política. A verdade, a justiça distributiva e retributiva, o bem são alguns dos assuntos que os alunos de 9, 10 e 11 anos tratam na aula de Filosofia, que não entra na avaliação final. "Em vez de partir de problemas abstratos, é interessante ver quais as opções, as avaliações e os juízos que os alunos formam", refere o professor. No trabalho de seleção, é fundamental escolher o que é filosoficamente relevante e didaticamente adequado.

Os assuntos têm despertado bastante interesse dentro da sala de aula e o balanço é positivo. O sentido da vida é uma das questões que um aluno já pediu para abordar na aula. "Será que as máquinas pensam?", foi a questão da filosofia da mente lançada aos pequenos estudantes. A introdução de problemas de lógica no 6.º ano está em perspetiva. "Os miúdos captam os assuntos. É perfeitamente possível ensinar Filosofia a estas idades e de uma maneira séria, dando-lhes argumentos que são classicamente discutidos."

Carla Pereira é a outra professora de Filosofia de serviço. Usa os textos criados por Faustino Vaz, herdou o material didático, e este ano letivo começou a ensinar Filosofia aos alunos mais novos. "É um desafio", admite. Colocá-los a refletir sobre os temas, avaliarem argumentos, apresentarem soluções. O que estimula o espírito crítico. "Eles interiorizam as questões principais, tomam posições, aprendem a pensar por si próprios", adianta. O papel do professor, além de conduzir a aula, é orientar no sentido de formar os melhores juízos. E sentido crítico? "Têm-no bem espevitado e bem aguçado", responde Carla Pereira. "Sabem distinguir um problema filosófico de um problema não filosófico", acrescenta Faustino Vaz.

Porque não Filosofia? Porque não aguçar a análise crítica, a capacidade de análise, o poder de argumentação em alunos que acabaram de sair do 1.º ciclo? A diretora da escola de Espinho, Maria Ricardo, considerou que a disciplina fazia todo o sentido nos 45 minutos que pode gerir como entender. "É uma novidade que agrada a pais e alunos". "A Filosofia está um bocadinho na moda. É um projeto novo, é uma novidade, uma oferta da escola. Nesta idade, fica sempre lá qualquer coisa", afirma. A possibilidade de estender a Filosofia ao 3.º ciclo está, por enquanto, colocada de parte. Maria Ricardo explica que os 45 minutos são constantemente requisitados por disciplinas que fazem parte do currículo.
Notícias mais recentes
Uma reforma para despedir professores? 2012-02-10
BE contra "mesquinhez" por trás de fecho de centros2012-02-10
Progressões de professores anteriores a janeiro de 2011 serão regularizadas 2012-02-10
“Vai ver se estou online!”2012-02-08
Debate sobre revisão curricular prossegue no Parlamento2012-02-08
Não se pode aprender de estômago vazio 2012-02-06
Novas Oportunidades: e depois de agosto? 2012-02-03
30% dos Centros Novas Oportunidades vão fechar 2012-02-01
Reforma curricular motiva mais de 950 textos 2012-02-01
Professores criam movimento em defesa de EVT 2012-01-27
Provedor de Justiça preocupado com revisão curricular2012-01-25
CNE recomendou ao Governo que apostasse na Formação Cívica2012-01-25
Novas Oportunidades: profissionais admitem exigir compensações2012-01-25
Menos casos de violência escolar reportados às autoridades em 20112012-01-23
“Os adultos não são alunos em ponto grande” 2012-01-20
DGS dá orientações às escolas sobre procedimentos para medicar alunos2012-01-20
ONG propõe Educação Sexual como disciplina obrigatória 2012-01-20
Regime de trabalho pode implicar que crianças tenham que ficar sozinhas aos sábados2012-01-19
Excesso de chumbos ou de facilitismo? 2012-01-18
O EDUCARE.PT acredita na responsabilidade e civismo dos seus utilizadores.
Alguns comentários poderão ser sujeitos a um processo de verificação, pelo que só serão publicados após a respetiva validação. Reservamo-nos o direito de remover todos os comentários que não forem considerados pertinentes para a matéria em análise, bem como todos aqueles que não se encontrem devidamente identificados e/ou que apresentem linguagem imprópria. Não é permitida a difusão de produtos ou atividades considerados irrelevantes para a matéria em análise.
Lembramos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, especialmente no que diz respeito à veracidade dos dados e das informações transmitidas.
ARQUIVARIMPRIMIRENVIARSUGESTÃO
COMENTÁRIOS
Porque SIM !
E porque não a Filosofia? A esta pergunta do texto eu repondo: PORQUE SIM? Porque a minha experinciência nesta área (desde 2000), me diz que o Metodo de LIPMAN funciona perfeitamente. Funciona porque permite o desenvolvimento de Competências fundamentais ao crescimento das Crianças e adolescentes, nomeadamente, competências logico-argumentativas. Para além, de ajudar no exercício argumentativo, permite o desenvolvimentode competências de análise, síntese e C´rtica, para não falar de noções de civismo e de consciencialização de valores . Do que precisamos mais para tornar os nossos Jovens participativos e conscientes do seu lugar numa Sociedade Democrática? Parabéns à Professora Carla Pereira (se não me enganei no nome) pela iniciativa. Gostaria de trocar impressões sobre o seu trabalho nesta área. wwwfilosofiaparatodosdialogico.blogspot.com Luís Mourinha
Luís Manuel Mourinha, Barreiro
11.02.2010
Publicidade
registo | newsletters
Termos e condições de acesso | Estatuto Editorial
Publicação diária | Nº registo do GMCS: 123727 | Diretor: Rui Almeida Pacheco
Propriedade: Porto Editora, Lda. | CRC PORTO e NIPC: 500 221 103 | Soc. por Quotas | Cap. Soc. EUR 1.400.000

Rua da Restauração, 365, 4099-023 Porto | Tel.: 22 608 83 26 | Fax: 22 608 83 27
E-mail: assistente@educare.pt
 

Atualidade | Opinião | Fóruns | Agenda | Legislacao | Outras Informações | EducareTV
RSS Twitter Facebook YouTube