As raparigas e os alunos mais velhos são os que menos se envolvem em situações de violência escolar. A maior parte das vítimas e dos agressores são rapazes, 16% das escolas distinguem-se por terem muita violência e tudo indica que o Alentejo seja a zona do país com mais casos violentos. Violência que se pode associar à falta de diálogo com os pais, consumo de substâncias ilícitas, desinteresse pela escola, má relação com os professores. Estas são algumas das conclusões do estudo "Prevenção da violência interpessoal em meio escolar" de Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.
Na pesquisa efectuada, estima-se que em 16,4% das escolas há um maior convívio com situações de violência e em 12,7% um quase inexistente convívio. O que demonstra que "por um lado a violência ?problemática' ocorre num número reduzido (embora sempre preocupante) de escolas". Os restantes 71% das escolas ficam na zona sem destaque, nem pela positiva, nem pela negativa.
No trabalho, aborda-se o fenómeno do bullying como um subgrupo de uma violência mais geral, e que está interligado "com dinâmicas de exclusão social, de discriminação, de dificuldade na resolução de conflitos verbalmente, e de um modo inadequado (violento) de lidar com a ansiedade e com a frustração". A pesquisa centrou-se numa amostra de 11 008 adolescentes do 6.º, 8.º e 10.º anos de escolaridade, com uma média de idades de 14, distribuídos igualmente pelos dois géneros, e de uma forma proporcional pelas cinco regiões educativas de Portugal continental.
A investigação detecta alguns sinais físicos e psicológicos dos jovens que já passaram por uma ou mais situações de bullying. Não querem ir à escola, estão constantemente cansados e deprimidos, dão voltas na cama antes de adormecer, têm dores de cabeça. As vítimas de bullying têm dificuldade em fazer amigos, têm problemas com a sua imagem corporal. No caso dos agressores há dados a reter: há pais que não sabem por onde andam ou o que fazem os filhos depois das aulas terminarem, em que gastam o dinheiro que lhes dão, como ocupam os tempos livres, onde vão com os amigos ao fim-de-semana. Há uma fraca supervisão dos pais.
"A violência não está a aumentar, há mais visibilidade porque já não é tolerada socialmente - e ainda bem - e então sabemos de cada caso que vai aparecendo, coisa que antes não acontecia", salienta Margarida Gaspar de Matos, lembrando que a prevenção da violência nas escolas tem sido uma área prioritária desde 2005. Os estudos confirmam que a maior parte dos alunos e das escolas não se envolvem e não têm problemas de violência.
Margarida Gaspar de Matos defende que as escolas onde há mais problemas, devem usar o estatuto de autonomia para provocar um debate que envolva professores, alunos, pais, auxiliares, bem como outros profissionais da área. "A partir daí deve chegar-se a um regulamento simples e partilhado com regras simples e ?custo da resposta' (por não cumprimento) imediato e simples".
"Deve haver um reforço de auxiliares para os recreios; formação de pais, professores, alunos e auxiliares; incentivos e alternativas variadas, permitindo o sucesso escolar e de vida e expectativas positivas para o futuro", defende. Na sua opinião, vigilância e punição por si só são "estratégias ineficazes" e que "podem mesmo tornar-se perversas e aumentar a violência".
A investigação baseou-se no Health Behaviour in School-Aged Children, realizado de quatro em quatro anos, sobre comportamentos de saúde em meio escolar e que abrange alunos do 6.º, 8.º e 10.º anos. Tem o patrocínio da Organização Mundial de Saúde e é feito em Portugal. Os resultados deste estudo revelam que cerca de 20% dos adolescentes foram vítimas de violência e cerca de 20% assumem que foram agressivos. Cerca de 25% referiram-se simultaneamente como vítimas e agressores.
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