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Exageros de Natal
Sara R. Oliveira| 2009-12-18
A quadra natalícia apela ao consumismo. Exagera-se na hora de comprar e, por vezes, não se separa o essencial do acessório. Os brinquedos deixaram de ser objectos de brincar.
A tradição não cede um milímetro. Luzes a piscar, árvores com bolinhas de todas as cores, montras repletas de brinquedos, pais natais em todos os cantos, publicidade alusiva à época. É tempo de Natal e o cenário não varia muito de ano para ano. Os carrinhos de compras enchem-se mais do que o habitual e a palavra consumismo volta a entrar no vocabulário do dia-a-dia. Exagero na hora de comprar prendas para os mais novos? Parece que sim. Mas há cuidados a ter antes de mandar embrulhar os presentes.
 
"Natal, na verdade, dizem-nos os números, é sempre tempo de algum exagero para os mais novos." Alberto Nídio, sociólogo e mestre em Sociologia da Infância, admite que não é fácil contrariar hábitos há muito enraizados. "Reformulá-los, talvez. Concertar estratégias no seio da família e das instituições por forma a que as coisas se racionalizem um pouco e se consiga mesclar o lúdico com o didáctico. Esta será uma boa forma de diluir esta saga consumista que, tal como está, mais não faz do que inundar os quartos das crianças de um mar de brinquedos, com que elas raramente vão brincar, se é que alguma vez mesmo o irão fazer." O brinquedo impera e reina no Natal. "E tantas outras coisas de que as crianças carecem ficam para segundo plano", observa. 

As crianças ocupam um lugar central na sociedade, sobretudo nesta época em que o Pai Natal está por todo o lado. "É recorrente, por esta altura do ano, cair sobre as crianças uma chuva de prendas, que pais, avós, tios, padrinhos e alguns amigos mais próximos fazem chegar aos mais pequenos." "É um fartote de prendas que nunca mais acaba." Alberto Nídio apresenta algumas sugestões para tentar contrariar os tais hábitos. Oferecer brinquedos tradicionais, como um pião ou um rapa, e disponibilizar algum tempo para, com os filhos, construir objectos de brincadeira. "Talvez a playstation, o gameboy ou o telemóvel não se importem muito com isso e até gostem de ter uma ventoinha, um papagaio, uma roda com a gancheta ou uma bonita piorra por companhia, sem que ninguém estorvasse ninguém", refere. 

Na sua opinião, os pais deviam usar o tempo disponível para "transmitir aos filhos a cultura lúdica do seu tempo de meninice, do tempo em que era pela mão do Menino Jesus que a prenda - uma única prenda e nem sempre um brinquedo - era colocada com ternura no sapatinho, que num cantinho da lareira colocávamos quando a festa da consoada terminava e todos recolhíamos aos quartos para dormir".

"O tempo de brincar e do jogo tem-se tornado um tempo de consumo e de trabalho." Maria José Araújo, investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativa da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e autora do livro Crianças Ocupadas, sublinha, em primeiro lugar, que "o consumo é uma actividade colectiva que não afecta especialmente as crianças, mas todos nós". "Os brinquedos e os jogos são, seguramente, um dos sectores de maior consumo e assim são tratados como produtos. As crianças são seduzidas por uma grande máquina de marketing comercial e, nesse sentido, os brinquedos têm vindo a ser desvalorizados pelos adultos que os consideram objectos de consumo, fúteis e desnecessários. São apresentados às crianças como objectos com funções específicas, desvalorizando-se a invenção e a fantasia", constata.

A investigadora admite que o assunto é complexo. Em seu entender, os brinquedos passaram a ser desvalorizados enquanto objectos de interesse cultural. "As crianças, aliás, são consumidoras mas também produtoras, pois ajudam a promover os produtos participando quase sempre em todas as campanhas de promoção." É preciso, portanto, atenção na hora de comprar. "Os pais e encarregados de educação não são consumidores passivos, são actores conscientes. Mas, muitas vezes, compram, sem saber bem porquê, objectos da moda porque os filhos pedem ou simplesmente porque é Natal."

Educar para a cidadania
Manuela Sousa é professora do 1.º ciclo e considera que a perda de valores é uma das principais consequências do consumismo atribuído às crianças. "Já não reconhecem um brinquedo manual como brinquedo. Aliás, ficam muito admiradas para a utilidade do objecto. Acham-se no direito de ter tudo a custo zero. Tornam-se crianças desinteressadas", refere. Por isso, é necessário educar para a cidadania. "Mostrar que há sempre quem precise mais do que nós, que na vida há que diferenciar o essencial do acessório, doar e participar em associações de solidariedade." Outra sugestão passa por trabalhar com materiais reciclados para construir brinquedos e objectos de decoração.

A professora observa o que se passa nesta época e não só. "Quem oferece demonstra uma obrigação de oferecer muito, principalmente em quantidade, provavelmente de modo a colmatar a ausência. Estas ofertas já não se verificam apenas nesta quadra natalícia, mas ao longo do ano. Tenho ainda verificado que, para além da quantidade nas ofertas, estas também são escolhidas em função do preço: quanto mais caras, melhores!" Em seu entender, é importante que pais e filhos conversem sobre os presentes, de forma a seleccionar apenas um. "Será, na minha opinião, benéfico a criança construir os presentes que oferece, como também receber presentes feitos por quem oferece. É importante consciencializar todos os membros da família nessa 'partilha construída' e dar-lhe mais valor. E iniciar essa tarefa desde tenra idade: oferecer um desenho, oferecer um postal (desenho e escrita), oferecer uma pequena história em livro construída pelo próprio, oferecer prendas com material reciclado."

António Gomes tem um filho de 13 anos. "Só poderemos contrariar a tendência do excesso se conseguirmos 'estruturar' a criança, explicando-lhe que o conceito de prenda deve ser visto como prémio e não como algo que se dá porque se quer." Na sua opinião, só uma alteração profunda na sociedade poderá mudar o actual cenário. "Nos dias de hoje, as crianças são consideradas um alvo preferencial para o marketing. Efectivamente uma criança é um potencial consumidor no futuro. E há ainda a pressão dos media, a apresentação de anúncios apelativos que são, na maioria das vezes, manipulados para propiciarem experiências interessantes, que estimulem a procura e o interesse por ter um brinquedo ou outro objecto".

Passou-se do oito para o oitenta. Para António Gomes, os mais pequenos não valorizam as conquistas e as dificuldades porque os pais usam o argumento de não quererem que os filhos passem pelos mesmos obstáculos de quando eram mais novos. E isso reflecte-se na hora de comprar. Muito exagero nas compras de Natal? "De uma forma geral, sim, sem que haja, na maioria da vezes, o conceito da utilidade. Por vezes, os parentes mais directos acabam por contribuir para esse 'exagero'". No Natal, António Gomes procura dar prendas úteis e que tenham um significado. "Que sejam vistas também como prémio pelo trabalho e pelo empenho dos filhos."
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