Os nomes dos Prémios Gulbenkian deste ano nas áreas da educação e da arte já são conhecidos. O Prémio Gulbenkian Educação foi atribuído a duas entidades: à ACTA - Companhia Teatral do Algarve e à Academia de Música de Viana do Castelo. Uma distinção que foi parar às mãos de duas instituições com distintas áreas de actuação, mas com alguns pontos em comum: acção pedagógica sustentada e marcante e um forte investimento na formação e sensibilização de públicos.
Cristina Reis, cenógrafa e figurinista, recebeu o Prémio Gulbenkian Arte por um percurso de 35 anos, sobretudo pelo trabalho que tem desenvolvido ao serviço do Teatro da Cornucópia. Os prémios, de 50 mil euros, foram entregues ontem no anfiteatro ao ar livre da Fundação Gulbenkian, pelas 18h00. A data é especial: Calouste Gulbenkian morreu a 20 de Julho de 1955 em Lisboa. A cerimónia foi aberta ao público.
A ACTA - Companhia Teatral do Algarve tem um palco móvel que percorre toda a região. Um autocarro devidamente equipado percorre várias zonas de difícil acesso e organiza espectáculos para crianças e idosos de cada local onde estaciona. Um veículo com palco, plateia, régie, bastidores e camarins, que faz parte do serviço educativo da ACTA e que se chama VATe - Vamos Apanhar o Teatro. "Tem sido um veículo de combate ao isolamento e também um veículo de formação. No ano que terminou, atingimos 6 329 crianças de 55 escolas do Algarve e respectivas famílias. Pela primeira vez, ouviram falar em D. Quixote e em Cervantes; no próximo ano vão ouvir falar em Próspero, Miranda, Calibam e Ariel e em Shakespeare", adianta Luís Vicente, o responsável pela ACTA. "O resultado não é imediatamente tangível, mas que produz efeitos, não duvidamos: temos provas", acrescenta. O dinheiro do prémio será gasto precisamente em melhoramentos a efectuar no autocarro.
A companhia tem 15 anos de trabalho e além de ser uma estrutura profissional, com programação artística regular, faz questão de divulgar o teatro junto das escolas. Com uma forte componente pedagógica, a ACTA aborda temas pertinentes, como o bullying, a sexualidade e a toxicodependência, através de projectos artísticos que incidem em problemáticas que interessam à comunidade escolar. Luís Vicente explica como tudo funciona. "O trabalho que desenvolvemos junto e com as escolas caracteriza-se, no essencial, pela utilização de recursos e técnicas próprios do universo teatral aplicados no âmbito da educação, propriamente dita, e da formação geral do ser humano. As matérias que tocamos são transversais aos programas curriculares e o modo como as abordamos é complementar ao trabalho feito pelos docentes em registo de aula".
A ACTA tem 14 elementos fixos e, dependendo da altura do ano, pode trabalhar com uma equipa de 44. O grupo permanente envolve-se na formação de públicos, de forma que esse trabalho traga acrescentos à fruição artística. O Prémio Gulbenkian é muito bem recebido. Uma distinção que, para Luís Vicente, "significa o reconhecimento desta instituição pelo trabalho que temos vindo a desenvolver no âmbito do nosso serviço educativo e do Programa de Teatro para a Educação".
Projectos pioneiros e muito ligados à música contemporânea. Criação de vários públicos, desde o infantil ao sénior, passando pelo juvenil. Iniciativas desenvolvidas à volta da música erudita. Uma divulgação musical que não tem passado despercebida. A Academia de Música de Viana do Castelo, também distinguida com o Prémio Gulbenkian Educação, tem 33 anos de vida e um trajecto sólido e inovador. E não é só a vertente formativa que se tem destacado, a vontade de abrir novos caminhos também mora naquela casa.
A comunidade escolar recebeu o prémio com muito orgulho. "É muito gratificante que o trabalho desenvolvido há mais de 30 anos tenha sido reconhecido pela Gulbenkian", refere Carla Barbosa, presidente da Academia de Música de Viana do Castelo. Educação vocacional artística, divulgação e formação de públicos e criação de obras são os três eixos sobre os quais gira todo o trabalho da Academia. Nesse sentido, a vocação artística, o desenvolvimento de projectos - alguns dos quais têm conquistado primeiros prémios em iniciativas promovidas pelo Ministério da Cultura - e a aposta em composições estão na linha da frente.
Carla Barbosa revela que a Academia transforma contos em músicas, textos que fazem parte do Plano Nacional de Leitura em obras melódicas que são apresentadas a alunos do 1.º e 2.º ciclos no teatro municipal Sá de Miranda em Viana do Castelo, no teatro Diogo Bernardo em Ponte de Lima e ainda em Paredes de Coura, através de uma boa articulação com os agrupamentos escolares dessa região. E é um ensemble com 15 elementos, que não repetem instrumentos, que colocam os contos nas pautas. "As obras são apresentadas às escolas, para que os alunos fiquem sensibilizados pelos textos, mas também pela parte musical", afirma a responsável.
A Academia tem, neste momento, mais de 500 alunos, 350 dos quais em regime de articulado. A estrutura tem ainda um coro "emblemático", que integra ex-alunos, e que se prepara para gravar um CD com obras de Lopes-Graça. As gentes ligadas à Academia sentem que o prémio da Gulbenkian faz todo o sentido, pelo menos é esse o teor das mensagens que têm chegado à Direcção, que ainda não decidiu onde vai aplicar o dinheiro do prémio.
Lídia Jorge, Guilherme de Oliveira Martins, Maria Helena da Rocha Pereira, Vítor Aguiar e Silva e João Filipe Queiró integraram o júri destacado para escolher as instituições na área da educação. Enquanto Jorge Silva Melo, João Marques Pinto, José Gil, Raquel Henriques da Silva e Salwa Castelo-Branco tiveram a tarefa de escolher um nome do mundo das artes.
Cristina Reis, licenciada em pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e em Arte e Design Gráfico pela Ravensborne College of Art and Design, foi também distinguida pela Gulbenkian, mas na área artística Não é a primeira vez que o seu trabalho é destacado publicamente. Em 1997, a cenógrafa obteve o Prémio ACARTE/Maria Madalena de Azeredo Perdigão pelo espectáculo "Os sete infantes". Dois anos depois, ganhou o Prémio Almada/Teatro, atribuído pelo Ministério da Cultura, e em 2000 o Centro Português de Design distinguiu o seu trabalho com o Prémio Nacional de Design/Carreira.
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