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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
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Fim do 12.º ano: Futuro à vista!
Andreia Lobo| 2010-06-14
Contam-se os dias para o início dos exames nacionais do 12.º ano. As horas de estudo são já longas. E as médias de acesso ao ensino superior uma constante preocupação.
No refugo dos sonhos, a vocação é apartada quando as notas de acesso ao Ensino Superior se vislumbram baixas de mais para "cumprir os objectivos". Por "falta de média" são incontáveis os alunos que não ingressam no curso desejado. Mas se "o que importa é ir para a universidade", como muitos admitem, procuram-se cursos alternativos com médias mais acessíveis. Com o fim do terceiro período à vista, a grande maioria dos alunos do 12.º ano antecipa uma nova etapa do seu percurso escolar: a vida académica.

Na expectativa de saber se o seu sonho "inicial" se tornará realidade está Juliana Lameira. Quando chegou ao 10.º ano, esta aluna da Escola Secundária Dr. Jaime Magalhães, em Aveiro, optou pelo curso de Línguas e Humanidades, por ter sido orientada para lá. "Inicialmente, o meu sonho seria algo relacionado com jornalismo, mas o meu percurso académico não correu tal como eu esperava e não tenho média suficiente para ingressar nesse curso, infelizmente não consegui corresponder às expectativas", desabafa a aluna.

O "erro" constata agora Juliana Lameira, na plenitude dos seus 18 anos, foi não ter optado pelo curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias, onde estavam agrupadas as suas "disciplinas predilectas". Falhou a informação no 9.º ano de que poderia ter seguido essa via e de igual modo - aos alunos que escolhiam Línguas e Humanidades - ter chegado ao 12.º ano apta a se candidatar ao curso superior de jornalismo. Recordando a forma como tanto ela e os seus amigos se viram na necessidade antecipar o futuro académico logo no fim do seu ensino básico, desabafa: "Não tínhamos ideias nenhumas de universidades, de provas de ingresso, de médias, éramos ainda crianças e a única coisa que fazíamos eram testes [de aptidão vocacional] que em nada me ajudaram."

Assim, o gosto de "escrever" talvez se expanda para outras áreas, como a do ensino. E o sonho inicial dará lugar a outros: "Ciências da Comunicação ou da Educação, o que quero mesmo é seguir algo relacionado com a interacção de pessoas." Por isso, no formulário de candidatura ao Ensino Superior de Juliana Lameira vão figurar os nomes das faculdades de Letras, Comunicação e Educação da Universidade de Aveiro e do Porto.

Paula Fernandes vê esta reconversão de sonhos acontecer todos os anos com os alunos que recorrem ao serviço de psicologia e orientação na Escola 2+3 e Secundária Santos Simões, em Guimarães. "As expectativas que trazem do 10.º ano vão-se diluindo, umas vezes porque os alunos constatam que, na prática, não gostam das disciplinas do curso que escolheram, outras porque a média que conseguem se torna baixa", para alcançar os sonhos iniciais.

Casos há em que Paula Fernandes assiste à troca do ensino público pelo privado, por alunos cuja opção universitária obriga à necessidade de completar o ensino secundário com "notas muito altas". "Saem no 10.º ano, com pena de deixar a escola e os colegas e cientes de que vão ter pela frente três anos difíceis, mas dizem que o sacrifício vale a pena pela média."

Perante um sistema que permite que as médias de alguns cursos, a exemplo dos ligados à Medicina ou à Arquitectura, sejam "tão" elevadas, Paula Fernandes tece duras críticas. "É tornar o acesso muito elitista, porque se não houver ajudas e explicações acho muito difícil os alunos conseguirem ingressar", critica, conhecedora de que "uma média de 18 valores não garante a vocação".

Quem não garante se tem ou não perfil para se tornar jornalista é João Marques: "Não sei se tenho vocação, gosto de comunicar com o público." Com 16 anos, frequenta o 12.º ano da Escola 2+3 e Secundária Santos Simões, em Guimarães. Está ansioso por saber se o sonho de "cursar" Comunicação Social se poderá concretizar, mas teme que o facto de não estar a completar o ensino secundário em Línguas e Humanidades lhe possa trazer dificuldades acrescidas. "Ainda assim vou arriscar!", avisa o aluno.

A Biologia foi a área que justificou o ingresso no 10.º ano no curso científico-humanístico de Ciências e Tecnologias. No entanto, foi o gosto pela Comunicação que no final do 12.º ano acabou por triunfar. Quanto à universidade à qual se candidatará João Marques, ainda terá de "ver as médias". Por agora, a sua é de 13,5. Sendo que, por esta altura, com os exames nacionais apenas a alguns dias, falta pouco para saber se a nota será suficiente?

Quando preparam o acesso ao Ensino Superior os alunos regulam-se pelas notas alcançadas pelo último candidato a entrar no ano anterior para o curso pretendido. Por esta altura, João Marques já deve saber que o curso de Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho, pediu uma nota de entrada de 159,4 e ofereceu 60 vagas; na Universidade da Beira Interior registava uma nota de acesso de 133,6 para 50 vagas; na Universidade do Porto, de 162,2 para 75 vagas; e por fim, em Jornalismo na Universidade de Coimbra, de 155,0 para 40 vagas. Logo verá qual o curso ao alcance da sua nota.

Até agora, os 17,5 de média de Rui Silva parecem abrir as portas da Universidade do Minho, onde este aluno de 18 anos pretende entrar. Ainda não escolheu o curso, mas identificou algumas áreas que considera "mais atractivas", no seguimento da via das Ciências e Tecnologias: biologia, engenharias, ambiente e energias renováveis.

Sobre as suas opções, Rui Silva acha-se mais motivado para perceber qual das áreas prefere do que preocupado "em escolher um curso com saída profissional". Mas seja qual for a opção, a média garantirá o sucesso. Já que no curso de Biologia Aplicada, a nota de acesso no ano passado ficou nos 147,6 e nas diferentes engenharias as notas oscilam entre os 130,2 (Polímeros) e os 177,6 (Biomédica) e as vagas disponíveis situam-se entre os 30 alunos (Engenharia de Materiais e de Comunicações) e os 105 (Engenharia Biomédica).

Ainda a frequentar o 11.º ano, Eduarda Oliveira, de 16 anos, há muito percebeu que o curso com que sonhava está fora do seu alcance. A frequentar Artes Visuais, esta aluna da Escola 2+3 e Secundária Santos Simões, em Guimarães, tinha traçado uma linha até à Arquitectura. Mas a meio do seu percurso escolar, Eduarda Oliveira deu por si num emaranhado de traços: "Vi que a realidade da profissão não correspondia bem à ideia que eu tinha."

Decisivo para esta constatação foi o facto de um dos seus professores ser arquitecto. "Fiquei a perceber que não teria apenas de desenhar umas casinhas...", graceja. Mas a uma certa desilusão com a profissão dos seus sonhos, que poderia não ser dissuasiva, acrescentou-se a dificuldade em conseguir ter bom aproveitamento nas disciplinas inerentes à sua escolha, nomeadamente a Geometria Descritiva. Do somatório de tantos factores contra a solução encontrada foi a possível. "Já desisti" - esclarece a aluna - "sobretudo por causa da média", que nunca poderia ser inferior a 18 valores, se Eduarda Oliveira realmente quisesse lutar pelo sonho de se tornar arquitecta.

Mais diplomados

Nos últimos oito anos, o número de diplomados não tem parado de crescer. Assim, de 61 140 no ano lectivo de 2000/2001, o total de alunos com diploma, conseguido no ensino público e no privado, aumentou para 84 009 em 2007/2008, de acordo com os dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Em termos de área de formação, registou-se uma descida para menos de metade das preferências pelos cursos ligados à educação, comparando dados dos anos lectivos acima mencionados. Ou seja: no ano lectivo de 2007/2008 formavam-se nesta área 5398 alunos, contra 12 054, no ano de 2000/2001.

No pólo oposto, os cursos ligados às engenharias, indústrias transformadoras e construção, têm vindo a ganhar mais diplomados nos últimos oito anos: de 7143 (2000/2001), para 17 037 (2007/2008). Também as áreas das ciências, matemática e informática acusam semelhante aumento de preferências entre os alunos, com o número de diplomados quase a duplicar: de 3424 em 2000/2001, para 6294 em 2007/2008.

Estudar perto de casa

A Universidade de Aveiro (UA) é "sem dúvida" a instituição mais escolhida pelos alunos da Escola Secundária de José Estêvão, localizada na cidade aveirense, diz Maria do Rosário Ruivo, psicóloga naquele estabelecimento de ensino.

Do mesmo modo, a Universidade do Minho (UM), com campus nas cidades de Braga e Guimarães, lidera o top de preferências dos alunos da Escola Secundária Francisco de Holanda. "Os alunos procuram não sair da sua área de residência", constata Rosalina Pinheiro, sub-directora da escola vimaranense.

Com as universidades a oferecerem cada vez mais variedade de cursos, aumenta a possibilidade de os interesses dos alunos encontrarem satisfação no estabelecimento de ensino superior mais próximo da sua residência. A panóplia de oferta alia-se à necessidade de conter os custos de eventuais deslocações para outras cidades. Poupar no alojamento e na alimentação são as razões mais apontadas para evitar "estudar fora".

Entre os alunos da Escola Secundária Francisco de Holanda, em Guimarães, existe, segundo Rosalina Pinheiro, um outro factor que facilita a vida dos que se candidatam à UM: "O facto de haver uma boa rede de transportes entre os dois pólos da universidade ligando rapidamente Braga e Guimarães."

Por gosto, mas com futuro
Contra a pressão de escolher um curso que garanta a empregabilidade, ainda são os interesses pessoais que prevalecem na escolha. Mas não só. "Os alunos ponderarem as classificações de ingresso ou factores ligados ao mercado de trabalho e ainda percepções sobre a qualidade das instituições", garante Maria do Rosário Ruivo. "Embora haja muito o exercício de antecipação do futuro e de procurar algo que faça sentido e que se coadune com interesses e características pessoais."

Na Escola Secundária Jácome Ratton, em Tomar, a Universidade Técnica de Lisboa e a Universidade de Coimbra reúnem as preferências dos alunos. Margarida Laborinho, psicóloga escolar naquele estabelecimento de ensino, também reconhece que, "muitas vezes, a existência de uma nota de candidatura não muito elevada restringe desde logo o leque de opções dos alunos".

Quando as médias não constituem uma restrição, "os alunos optam, preferencialmente, por um curso superior universitário, em detrimento do ensino politécnico e dirigem a sua escolha para os estabelecimentos com maior prestígio reconhecido ou que indiciam um maior grau de empregabilidade dos seus cursos", garante Margarida Laborinho, que entretanto tem constatado um outro fenómeno relativo às escolhas dos alunos a quem tem prestado orientação vocacional. "Recentemente e influenciado pelas condições socioeconómicas dos seus agregados familiares, há um crescente interesse pelo prosseguimento de estudos em instituições de cariz militar e de segurança interna", reconhece.

Factores socioeconómicos estão ainda a determinar que um número crescente de alunos termine o seu percurso escolar no final do 12.º ano. Constituem uma minoria no panorama total dos alunos finalistas do Ensino Secundário, a julgar pelas opiniões recolhidas junto das escolas. Ainda assim, "a necessidade de o aluno começar a trabalhar para ajudar os pais" é uma realidade que não tem passado despercebida a Paula Fernandes. "Há famílias onde quer o pai, quer a mãe estão desempregados, aqui na região do Vale do Ave!" Sem preconceitos, a psicóloga admite: "Nesta escola estamos a sentir muito a crise!" Por outro lado, o aumento fervoroso das grandes superfícies comerciais constitui um forte atractivo. "Há alunos que estão saturados de estudar e com tanto centro comercial a abrir deixam-se aliciar pelo dinheiro fácil."

No balanço, entre rumar ao Ensino Superior, permanecer pelo secundário ou procurar outro tipo de formação é impossível saber qual das opções poderá garantir a tão falada "empregabilidade". "O mercado de trabalho está saturado, seja para absorver os alunos provenientes dos cursos profissionais [nível 3], ou dos mais recentes Cursos de Especialização Tecnológica [nível 4], ou os licenciados", avisa Paula Fernandes. Motivo pelo qual, quando os alunos se mostram preocupados em orientar o futuro pela garantia de emprego, a psicóloga vai alertando: "Não se pode omitir a realidade de que estamos muito mal ao nível das saídas profissionais em todo o país." Resta a quem termina o 12.º ano preparar-se para ter o máximo de sucesso possível, seja onde for. "Ser o melhor no que se faz" - garante Paula Fernandes - "é a melhor defesa".


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