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| "A criança não procura na televisão uma repetição da escola" |
| Andreia Lobo| 2010-05-21 |
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| Desejava que os professores estivessem mais sensibilizados para a importância da educação para os media. Em entrevista, Sara Pereira, investigadora da Universidade do Minho, acautela pais e educadores para um uso crítico dos 'novos' e 'velhos' meios de comunicação. |
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Passou mais horas a ver desenhos animados que possivelmente qualquer outro adulto. Não por ser mãe de dois filhos, mas por trabalhar em estudos sobre televisão e crianças. Sara Pereira é investigadora na área da educação para os media e professora na Universidade do Minho (UM). Em 2009 coordenou o estudo "A Televisão e as Crianças - Um ano de programação na RTP1, RTP2, SIC e TVI", encomendado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social ao Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, da UM. Sara Pereira é autora de vários artigos em torno deste tema e também do livro: A Minha TV é um Mundo - Programação para crianças na era do ecrã global. Num dia particularmente difícil, a investigadora ansiava notícias sobre a possibilidade de recuperar os ficheiros gravados num disco danificado, Sara Pereira explicou que a programação para crianças nos canais generalistas não é tão má como o senso comum pensa.
EDUCARE.PT (E): A que nos referimos quando falamos em educação para os media? Sara Pereira (SP): A educação para os media envolve práticas, mas também teorias que visam um uso mais crítico e construtivo dos media por parte dos consumidores ou públicos. Outra vertente importante, além da questão do consumo, é a da produção ligada ao desenvolvimento dos media digitais. Como existe maior possibilidade de os próprios consumidores se transformarem em produtores, a vertente da produção acaba por ser, hoje, bastante enfatizada.
E: Com os novos media ao seu alcance, as crianças ainda precisam da televisão? SP: (Risos) Apesar dos novos media, a televisão ainda é um meio importante de socialização. Talvez o principal modo através do qual as crianças tomam conhecimento de outros mundos para além dos seus ambientes familiares e locais. Por isso não podemos pensar uma infância sem televisão, ou seja, sem ser mediatizada. No entanto, ainda hoje encontramos manuais à volta da infância que nos remetem para cenários idílicos: crianças a saltar à corda ou a jogar ao pião. Ou seja, a analisar os mundos sociais e culturais da infância sem nunca focar os media. Como é possível não considerar uma parte fundamental da vida das crianças? Embora se saiba que a televisão pensada e difundida especificamente para crianças não é propriamente a que elas mais vêem...
E: O que vêem, então? SP: As crianças consomem sobretudo a televisão que é dedicada aos adultos. Em todo o caso, mesmo não sendo a mais consumida, a televisão pensada para crianças deve ser um espaço de qualidade, projectado não apenas com base no que são os seus interesses mais imediatos, mas também aquelas que são as suas necessidades de acordo com o que conhecemos sobre o seu desenvolvimento.
E: A dicotomia entre interesses e necessidades é visível em termos de serviço público e privado de televisão? SP: No que toca às diferenças entre canais públicos e privados, constato que alguns atendem mais aos interesses criados por eles próprios nas crianças, enquanto outros têm mais preocupação em atender àquilo que serão as necessidades das crianças.
E: E os canais televisivos dirigidos a bebés, atendem às suas necessidades? SP: Em termos do que está previsto que deva ser a estimulação nessas idades, a programação desses canais tem os conteúdos de maior qualidade para aquela faixa etária. Mas a questão está do lado do uso que se faz desses canais. Há vários autores que defendem que podem ser os telespectadores ou consumidores a transformar a televisão num instrumento educativo. Porque é evidente que os bebés precisam bastante de interacção presencial, do contacto com a mãe e com as pessoas que os rodeiam...
E: No entanto, há pais que promovem a televisão ao estatuto de baby-sitter... SP: A televisão é muitas vezes usada como forma de manter as crianças mais sossegadas. Daí que possa haver um mau uso desses conteúdos, ainda que eles sejam de qualidade. Mas se os próprios pais tiverem a sensibilidade para estar com o bebé chamando-o à atenção para o que está no ecrã, estes conteúdos podem ser uma excelente forma de estimulação a vários níveis.
E: Em creches e jardins-de-infância a televisão é usada para ajudar as crianças a passar o tempo... SP: Normalmente, os jardins-de-infância e as creches usam a televisão no início e no fim das actividades, o que poderia ser interessante se houvesse um consumo mais activo. Se a educadora tiver a preocupação de conversar com as crianças sobre o que viram (ou iriam ver) e as suas próprias práticas. Mas certo é que muitas vezes as crianças ficam em frente à televisão, já depois de um dia de actividades, e são obrigadas a ficar quietas e caladas até que os pais cheguem, quando lhes interessa mais a interacção com o colega do lado. Logo, este não é um bom uso da televisão.
E: Daí a importância de educar para os usos dos media não só as crianças mas os seus educadores e professores... SP: Sim. Na Universidade do Minho, tínhamos desde 1978 no curso de formação inicial de professores e educadores uma disciplina chamada Educação para a Comunicação Social, que conferia as bases essenciais para se desenvolver uma educação para os media nos diferentes contextos educativos. Mas em 2007 foi retirada devido à reestruturação curricular do Processo de Bolonha. Entretanto, está prevista a criação de um Mestrado chamado Comunicação, Cidadania e Educação.
E: E ao nível dos currículos escolares do Ensino Básico e Secundário? SP: Os conteúdos sobre os media estão dispersos por algumas disciplinas, embora a forma como se abordam esses temas nos manuais já não seja actual e falte uma abordagem na perspectiva da educação para os media. No entanto, esta não teria de ser uma disciplina autónoma nos planos curriculares dos alunos. Deveria ser uma matéria transversal, assim como é a educação ambiental ou para a saúde. Mas para isso acontecer teria de haver alguma sensibilização dos professores para trabalharem esta área.
A televisão que temos E: Como caracteriza a oferta de programas para crianças na televisão portuguesa? SP: O panorama não é tão negativo como o senso comum crê. Às vezes os adultos pensam numa programação idílica que as crianças não querem, não lhes interessa, nem vão ver. Se tivéssemos uma programação como a maior parte dos adultos a pensa, as audiências seriam ainda menores. A questão é que, muitas vezes, aquilo que é visto está ligado a campanhas de merchandising - aparece em roupas, brinquedos e nos materiais escolares - e, por isso, acaba por atrair mais as crianças.
Mas há programas na televisão generalista que são excelentes. Porque é que as crianças não os vêem? Ou os pais não têm a noção de que existem, até porque raramente vemos autopromoção de programas para crianças. Ou as crianças, dependendo dos seus horários escolares, não têm acesso a essa programação à hora em que é exibida. Ainda assim, há tanta tecnologia que permite fazer gravações... Se calhar seria importante pôr as crianças a verem esses programas noutras alturas...
E: Como qualifica um programa educativo para crianças? SP: Educativo do ponto de vista de quem? Dos produtores, dos pais, das crianças, dos educadores ou dos investigadores? Muitos dos programas considerados educativos não interessam à criança porque são muito escolarizantes e ela não procura na televisão uma repetição da escola. Tal como nenhum adulto procura no ecrã um segundo trabalho. Portanto, o educativo hoje tem de estar muito ligado ao que diverte e cativa. O humor é o ingrediente que as crianças mais valorizam num programa. E sabe-se que ajuda a desenvolver a sua inteligência, porque para se conseguir captar determinadas piadas é preciso estar atento e alerta. É também fundamental que lhes possa abrir novas perspectivas sociais e culturais.
E: Entre desenhos animados importados e legendados e animações nacionais ou internacionais mas dobradas em português, que "pacote" aconselha? SP: Cada vez mais é difícil atribuir uma origem aos programas, a globalização permite que os recursos sejam de vários países. No entanto, é importante que a televisão pública tenha pelo menos em grelha um programa nacional para as crianças que possa ir mais ao encontro da nossa cultura. Em todo o caso há programas internacionais magníficos que, pelo facto de serem legendados não perdem a qualidade.
Outra questão é a qualidade da dobragem. Um trabalho feito por uma equipa cuidadosa pode transformar um programa de qualidade média num bom. Isto é importante, se pensarmos que nos programas dirigidos a crianças a dobragem ultrapassa largamente a legendagem. A partir dos 12 anos, por razões que se prendem com a familiaridade com outras línguas, é mais interessante que os programas sejam legendados e não dobrados.
E: A "geração multimédia" está a ser formada para um uso crítico dos meios a que tem acesso, sobretudo da Internet? SP: Não. Podemos ter muita informação e pouco conhecimento sobre as coisas. Falta trabalhar a informação, saber filtrá-la e analisá-la. Estas são as capacidades que pretendemos desenvolver no âmbito de uma educação para os media. A propósito deste assunto costumo aplicar a imagem do surfista e do navegador. O surfista anda ao sabor das ondas que aparecem como a maioria dos jovens... abre janela, fecha janela... O navegador tem uma rota, um objectivo na sua navegação. É isso que falta a esta "geração multimédia": aprender a lidar de uma forma mais crítica com a informação e ser capaz de a trabalhar para a transformar em conhecimento.
As Escolhas de Sara Pereira
Citação: "Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive" ", de Ricardo Reis
Livro: A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano
Música: Tocando em Frente, de Maria Bethânia
Autor: Marguerite Yourcenar
Político: Nelson Mandela (e Barack Obama)
Viagem: Cairo
Memória de infância: A minha querida avó Laura
Sonho por realizar: Ter mais um filho, o terceiro |
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