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Sexualidade às claras
Sara R. Oliveira| 2010-02-24
Mudam-se os tempos, mudam-se as conversas. Os jovens falam mais abertamente dos seus hábitos sexuais e várias escolas têm gabinetes de apoio. Ainda assim, há comportamentos que devem ser evitados.
Os hábitos sexuais dos mais jovens mudaram? A questão é complexa, mas hoje o assunto já é abordado às claras, há técnicos nas escolas disponíveis para aconselharem os alunos. Há mais informação, mais publicidade, mais acesso a um tema que deixou de ser tabu. As manifestações públicas de afecto deixaram de ser olhadas de lado e a educação tenta acompanhar a evolução nesta matéria. Há comportamentos saudáveis e hábitos perigosos que convém evitar. Os especialistas estão atentos.

Ondina Freixo coordena o projecto Escola Promotora de Saúde na Secundária de Moimenta da Beira, onde há um gabinete disponível todos os dias pelo menos 90 minutos. Um espaço com desdobráveis disponíveis que alertam para várias questões ligadas à sexualidade. Os técnicos tiram dúvidas, ensinam a ler nas entrelinhas, distribuem preservativos pelos estudantes mais velhos, professores e funcionários. Os jovens estão a crescer depressa de mais? "As alterações na vida sexual dos mais jovens têm contribuído para que se sintam mais maduros e que pensem que já são adultos, pois já experimentaram algo que 'tecnicamente' é para alguém que tem um compromisso mais sério. Deste modo, ter relações sexuais tornou-se uma banalidade", refere Ondina Freixo.

A sexualidade é abordada sem rodeios mas, mesmo assim, há comportamentos que subsistem e que podem trazer consequências. Relações sexuais sem protecção e com pessoas desconhecidas e a troca constante de parceiros são, na opinião de Ondina Freixo, os hábitos menos saudáveis por parte dos mais jovens. O uso de métodos contraceptivos e a consciência do que se está a fazer são, por outro lado, hábitos saudáveis que devem entrar nos ouvidos dos mais jovens. "Ao iniciarem a vida sexual muito cedo, os jovens não têm noção daquilo que fazem e, muitas vezes, arrependem-se, uma vez que estão numa fase de desenvolvimento físico e psíquico", repara.

Mais informação é sinal de uma sexualidade mais saudável? Ondina Freixo considera que, regra geral, assim é, mas a qualidade da informação é muito importante. "Se a informação apelar apenas para os prazeres da sexualidade, as pessoas acabam por ter comportamentos de risco". A docente considera que foi feita uma passagem "consistente e sustentada" entre a época em que a sexualidade era um assunto proibido para um tempo em que o tema é abordado sem preconceitos. Em seu entender, o 25 de Abril foi essencial. "Devido a este acontecimento e à alteração de valores, é actualmente possível a existência de campanhas de sensibilização e informação, bem como a existência de gabinetes de informação nas escolas".

"O comportamento sexual dos jovens mudou devido à influência dos meios de comunicação na sociedade, nomeadamente o acesso fácil à informação e a maior publicidade acerca da sexualidade. Outro aspecto importante é a abertura de mentalidades que possibilitou que as manifestações públicas de afecto não fossem tão discriminadas", comenta.

Dois grandes perigos: medo e ignorância. Margarida Gaspar de Matos, psicóloga e investigadora na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, destaca os hábitos mais perigosos dos jovens quando o tema é sexualidade. Ter comportamentos sexuais sem conhecimento das consequências ou por medo de represálias, agressões, chantagem, abandono e humilhação. "Outro perigo é a associação da sexualidade à violência, à prepotência, ao desequilíbrio de forças, ao abuso, ao 'negócio'", alerta. A vivência da sexualidade no campo do afecto e do respeito do parceiro deveria, portanto, ser a regra.

A investigadora admite que os hábitos sexuais dos mais jovens podem não ter mudado tanto quanto à primeira vista possa parecer. "Estamos sobretudo a viver uma fase de grande acesso e poder da informação e da comunicação social. Fala-se mais do assunto, com maior abertura, o que, só por si, provoca uma mudança". Informação é fundamental, mas não chega. "É preciso ajudar a mudar atitudes, nomeadamente recusa de uma sexualidade coerciva, sob pressão, extemporânea ou descontextualizada."

Para Margarida Gaspar, a cultura ocidental vive uma sexualidade "feliz". "Quando, na História, é que já tivemos, apesar de ainda tão insuficiente, tanto empenho na protecção das crianças e adolescentes face à coerção e abuso físico e sexual?". "Quando, na História, é que já tivemos, apesar de ainda tão insuficiente, tanto empenho na igualdade das mulheres face à vida e à vivência da sua sexualidade?".

Há estudos contraditórios sobre o assunto. Hugo Cruz, psicólogo e coordenador de um programa municipal de combate à exclusão social, salienta que há pesquisas que introduzem a dimensão das novas tecnologias na área da sexualidade, da aproximação através de instrumentos de comunicação, como a Internet e os telemóveis. E há investigações que sustentam que, no fundo, o cerne da questão não mudou assim tanto quanto isso. Seja como for, há mudanças evidentes. "O que antes ficava por dizer, o que ficava arrumado, o que era tabu, o que fazia com que as pessoas se sentissem um pouco isoladas, hoje fala-se às claras, abertamente."

A sociedade evoluiu e os jovens vivem na pele essas alterações. "As pessoas ganharam mais confiança na sexualidade." No entanto, Hugo Cruz sente que a questão da promiscuidade pode ser um perigo. Por se falar de mais, por se discutir tão abertamente. Na sua perspectiva, é importante haver "um limite, uma baliza" para não se cair na tentação de expor demasiado a própria sexualidade. De qualquer forma, as conquistas são visíveis. "A mulher era como uma mera parte da sexualidade do homem. Desse ponto de vista, mudou bastante."


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