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Entrevistas
"Ser professor é ter a missão nobre de o ser"
Sara R. Oliveira| 2010-06-18
José Dias Gabriel foi distinguido com o Prémio Mérito Carreira. O professor de Português, já reformado, concorda com a avaliação da classe docente, mas não com o método "burocrático" que o sistema quer impor.
A escola, na sua opinião, deve também ter uma função social e ser dotada de equipas multidisciplinares para dar respostas aos tempos modernos. Aplaude o regresso do ensino profissional e os cursos de Novas Oportunidades. José Dias Gabriel, professor de Português já na reforma, ex-director da Escola Dom Egas Moniz, em Resende, edifício que ajudou a erguer, foi distinguido com o Prémio Mérito Carreira, atribuído pelo Ministério da Educação.
Lutador e inconformado. Observador e dinâmico. Sempre de olhos bem abertos. Nunca satisfeito. Garante que ainda há um longo caminho para percorrer na área educativa. A viagem, em seu entender, está no início da auto-estrada. Considera que tudo o que foi feito é uma gota no oceano para o que são as exigências da sociedade actual. E afirma que o país anda a reboque de experiências que já foram abandonadas em várias escolas da Europa.

Se voltasse ao passado, voltaria a tirar um curso ligado à docência. Voltaria a ensinar, a entrar numa sala de aula. "Ser professor é ser aprendente e ser um aluno mais velho a partilhar com os mais novos para criar sucesso. E essa é das coisas mais belas da vida", sublinha.

EDUCARE.PT: Pensa que foi o seu espírito lutador e inconformado que convenceu o júri a atribuir-lhe o Prémio Mérito Carreira?
José Dias Gabriel:
Foi mediante a análise do meu currículo que o júri me atribuiu o Prémio Carreira, no âmbito do Prémio Nacional de Professores, edição 2009, onde se pode constatar que, entre outras vertentes nele espelhadas, estão os anos de serviço na carreira, a preocupação com a autoformação, a criação de condições para o sucesso dos alunos e da escola, o inconformismo com os lugares comuns. Sempre com o objectivo de mais e mais, com inovação, pugnando sempre por adquirir para Resende e para a sua escola secundária o melhor, não perdendo qualquer oportunidade, dentro de um espírito que me é peculiar de nunca estar satisfeito comigo próprio e ansiar sempre por alcançar mais e mais, pondo de parte sempre o meu interesse pessoal, colocando acima de tudo o bem comum, mais concretamente, o bem-estar e sucesso dos alunos e restantes elementos da comunidade escolar.

E: Que significado tem esta distinção? É o reconhecimento de um trabalho e dedicação de anos?
JDG:
Este prémio tem, sobretudo, o significado de o sistema reconhecer o mérito pela dedicação e trabalho desenvolvidos e vem no seguimento do reconhecimento, quer pela escola, quer pela Câmara Municipal de Resende que me atribuiu a medalha de mérito municipal, grau ouro, pelos serviços prestados à comunidade resendense, não só no ensino, como também na área social, cultural e educacional.

E: Foi impulsionador da construção da Escola Dom Egas Moniz, em Resende - da "escola do seu contentamento" como lhe chama. O que o levou a dedicar-se a esse projecto?
JDG:
Quando iniciei a minha carreira em 1976, na Escola Preparatória de Chaves, não havia qualquer escola pública em Resende. No ano lectivo de 1976/1977, fui colocado na Escola Preparatória de Resende que abriu as suas portas em Janeiro de 2007, com 1.º e 2.º anos do ciclo preparatório, sendo um dos elementos da comissão instaladora. Porque quero sempre mais e mais e era o presidente do conselho directivo da escola e desempenhava, ao tempo, a função autárquica de presidente da Assembleia Municipal de Resende, em conjunto com o senhor presidente da Câmara, tinha mais oportunidades de poder concretizar alguns sonhos e torná-los realidade.

Os alunos que completavam o ensino preparatório tinham de se deslocar para Lamego, Régua, Porto, Viseu que tinham escolas do Ensino Unificado e Ensino Secundário para continuar os seus estudos, com muitos custos económicos para as famílias, ou ficavam apenas por aí. A escolaridade obrigatória era a 4.ª classe e depois a 6.ª. Sempre com a ideia de Resende ter o que outros concelhos já possuíam, foi criado nas instalações da mesma escola o ensino unificado e, como não era possível, por limitação física das instalações pensou-se na construção de uma nova escola para a instalação do Ensino Secundário em Resende.

Foi uma tarefa difícil até se conseguir convencer o senhor ministro Dr. Augusto Seabra de boa memória, e meu ilustre professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a dar luz verde à concretização da obra que foi construída em tempo recorde, apenas num ano. A escola foi e é um grande contributo para o desenvolvimento socioeconómico, cultural e educacional da comunidade de Resende. Valeu a pena os sacrifícios e a luta travada.

E: Que recordações guarda da sua carreira na docência?
JDG:
O ter conseguido alguns dos objectivos educacionais para os alunos que frequentaram a Escola Secundária de Resende e ver em cada aluno e seus familiares um conjunto de amigos que muito me estimam, o que muito contribui para a minha realização pessoal e profissional. E ver em cada professor um colega amigo, assim como aos funcionários que sempre estimei e continuo a estimar, sempre em verdadeiro espírito de equipa e sob o lema de todos por um e um por todos.

E: Assume-se como um professor da "velha guarda". Há muitas diferenças entre a "velha" e a nova geração de docentes?
JDG:
Os professores da "velha guarda", a que eu pertenço, viveram o antes e o pós-25 de Abril, pertencem a uma geração que passou muitas dificuldades e têm um espírito lutador maior em relação ao sistema do que a nova geração.

E: O respeito mútuo entre professores e alunos tem sido "beliscado" nos últimos anos?
JDG:
O respeito mútuo entre professores e alunos tem sido um pouco beliscado nos últimos anos, porque, neste momento, a escola reflecte a sociedade em que vivemos que é muito mais heterogénea e inconformada e, por isso, a escola tem, para além da sua função pedagógica e cultural, também de privilegiar a função social e ser dotada de equipas multidisciplinares, com psicólogos, assistentes sociais, sociólogos, juristas, etc.

E: Conseguiu que a escola de Resende fosse a primeira, da Área da Equipa Educativa Douro/Sul, a ter um Centro de Novas Oportunidades. Na sua opinião, a educação é hoje acessível a todos ou só a alguns?
JDG:
Progressivamente, a partir do 25 de Abril, temos caminhado, não como o desejável, mas dentro do possível, para que a educação seja acessível a todos. A criação dos cursos das Novas Oportunidades foi mais um longo passo que eu aplaudo, pois criou oportunidade de certificação de saberes adquiridos pelos cidadãos ao longo da vida e não reconhecidos, para efeitos de escolaridade.

E: Como analisa as actuais políticas educativas?
JDG:
Daria um grande tratado. No entanto, limito-me a dizer que tudo o que tem sido feito tem sido pouco para as exigências do nosso tempo e o nosso país anda a reboque dos outros europeus, e não só, e tem testado algumas experiências que noutros países foram abandonadas. Num mundo global e do conhecimento que vivemos, com acesso a todas as informações, muitas vezes descredibiliza quem as promove.

E: É contra ou a favor da avaliação da classe docente? Por que razões?
JDG:
Sou a favor da avaliação de professores, mas não desta avaliação de professores que o sistema quer impor, por ser muito burocrática e desviar os avaliados e avaliadores dos objectivos educacionais a que estão vinculados.

E: Quais são, em seu entender, os principais factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos?
JDG:
O sucesso é sempre muito relativo, mas, no meu entender, alguns dos muitos factores que contribuem para o sucesso dos alunos são o amor e carinho com que as famílias bafejam os seus filhos/alunos, o ambiente escolar disciplinado e acolhedor, um director de turma dinâmico e interessado, motivado e acolhedor, uma boa negociação das regras na sala de aula, professores competentes e empenhados, um ensino inovador e com prática simulada.

E: Acredita que o ensino, o modelo educativo, a educação estão no bom caminho? O que mais o agrada e o que mais o entristece?
JDG:
Está no bom caminho. O regresso do ensino profissional e os cursos de Novas oportunidades vieram abrir aos alunos vários caminhos para a escolarização e para as saídas profissionais. Temos um longo caminho a percorrer e que está no início da auto-estrada. O que mais me agrada, são as medidas de criação de sucesso e o que mais me entristece é o insucesso de alguns alunos que por falta de aceitação de acompanhamento se isolam, vacilam e descambam para caminhos da marginalidade.

E: Se pudesse voltar ao passado, teria novamente escolhido a profissão de professor? Porquê?
JDG:
Se voltasse ao passado, tornava a tirar um curso que desse acesso ao ensino, porque eu entendi e entendo que ensinar e aprender são das coisas mais nobres que o ser humano pode realizar. Ser professor é ser aprendente e ser um aluno mais velho a partilhar com os mais novos para criar sucesso. E essa é das coisas mais belas da vida. Ser professor é ter a missão nobre de o ser. Eu gostei muito de ser professor.

As escolhas de José Dias Gabriel

Uma citação: "O homem sonha, Deus quer e a obra nasce", de Fernando Pessoa.

Um livro: A Bíblia.

Uma música: Toda a música dos Beatles.

Um autor: Luís de Camões.

Um político: Nenhum.

Uma viagem: A Timor.

Uma memória de infância: Ter nascido numa família que se amava e dava amor aos seus filhos.

Um sonho por realizar: Conclusão do curso do meu filho mais novo.



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