| Isabel Alçada: a senhora que foi às escolas |
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| Sara R. Oliveira| 2009-11-04 |
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| Comunidade educativa deposita grandes expectativas na actual ministra da Educação e aguarda por novas linhas de orientação. Se não houver alterações, os professores podem voltar às ruas. |
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Isabel Alçada, de 59 anos, comissária do Plano Nacional de Leitura (PNL), co-autora da colecção juvenil "Uma Aventura", é a nova ministra da Educação. A sucessão de Maria de Lurdes Rodrigues é aguardada com bastante expectativa. A comunidade escolar conhece os passos da agora governante que chegou a ser professora do 2.º ciclo de Português e História e a pertencer à Direcção do Sindicato de Professores da Grande Lisboa. Esperam-se mudanças em alguns temas quentes da anterior legislatura e uma maior proximidade às estruturas sindicais. Os olhos estão agora postos nas políticas a definir por Isabel Alçada.
"Não é uma questão de ministra, é uma questão de políticas." Antero Resende, professor de Educação Visual e Tecnológica e membro da Direcção do Sindicato de Professores do Norte, explica o seu ponto de vista. "O que estava errado não era a figura de Maria de Lurdes Rodrigues, por mais tristonha que fosse, mas sim o que se estava a fazer à educação. Não contestávamos a figura da ministra e dos secretários de Estado, apesar dos vários comentários ofensivos à actividade docente, mas as políticas definidas", reforça.
Antero Resende não tem dúvidas. "Se não houver mudança de políticas, os professores vão novamente para a rua." "Nos últimos 50 anos, nenhum movimento na Europa assistiu a uma classe de professores na rua a quase 100%. E a nova ministra não pode virar as costas a determinadas situações, senão vai ter respostas idênticas." A separação da carreira em duas categorias e o processo de avaliação continuam no centro das atenções. Situações que o professor de Educação Visual contesta. "Não há professores de primeira ou de segunda, nunca houve um espartilhar da carreira em duas. Muitos professores que têm um trabalho meritório são relegados para o cargo de não titular." E mais: a própria carreira também sofre alterações. "A meio do jogo alteram as regras e isso não é admissível."
O docente, com quase 30 anos de serviço, levanta outra questão que, em seu entender, deve merecer atenção da política e da nova ministra. "Os órgãos de gestão vão ser avaliados pelos galões, pelo currículo, e não pelo desempenho", observa. "Dão uma no cravo e duas na ferradura", acrescenta. Defende o diálogo e que nessa troca de palavras se decida pela "imediata suspensão do processo de avaliação". "As escolas estão na corda bamba", diz, referindo-se à entrega dos objectivos individuais.
"É uma figura simpática, o seu percurso é de uma senhora que foi às escolas." Virgínia Neta, presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Miragaia, no Porto, admite, no entanto, que Isabel Alçada chega ao Ministério com "um histórico muito queimado pela outra ministra." "Para uma boa negociação vai ter de mudar um pouco o rumo das coisas da parte dos professores." E lamenta que as associações de pais, que não pertencem à CONFAP ou a outra organização, não sejam ouvidas pela ministra nesta fase de apalpar o pulso à realidade escolar.
Nas escolas, há reparos a fazer. As autarquias ficaram com competências no 1.º ciclo do Ensino Básico e, nesse sentido, Virgínia Neta defende um "papel mais fiscalizador" do lado do Estado. A responsável concretiza com exemplos de uma realidade que lhe é bem próxima. Pré-escolar sem grandes ajudas e casas de banho sem condições. Na EB1 da Bandeirinha, por exemplo, "há nove sanitas para 120 alunos".
Rosto sorridente para o exterior Manuel José Lima, director da Secundária Alexandre Herculano, no Porto, diz que ainda é cedo para comentar a presença de Isabel Alçada no Ministério da Educação. "Não temos conhecimento de que tipo de acções vão ser implementadas. Aguardamos com expectativa as linhas de orientação", refere. A sua perspectiva sempre foi a de que quem assume um cargo público é porque quer melhorar o estado das coisas. "Espero que a nova ministra contribua para uma melhoria da qualidade do serviço público de educação".
As expectativas da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) são altas, tendo em conta o que está escrito no programa do Governo que acaba de iniciar funções.
Albino Almeida, presidente da CONFAP, revela que guarda de Isabel Alçada "uma excelente impressão de trabalho". "Temos a convicção de que o facto de ter um papel ligado às escolas, do básico e do secundário, lhe dá seguramente um conhecimento daquilo que são hoje as necessidades de aprofundamento das reformas iniciadas e o lançamento do que faz falta."
E o que faz falta? "Fazer com que as famílias entendam a necessidade de se envolverem na educação dos seus filhos", responde. "Há necessidade de se desenvolver um programa de capacitação parental." Um assunto que será colocado na primeira reunião que a CONFAP tiver com a ministra. Albino Almeida reconhece ainda o trabalho feito pela comissária do PNL e a sua capacidade de reunir diferentes parceiros. "Pensamos que a doutora Isabel Alçada estará à altura das exigências do Governo para resolver alguns constrangimentos referentes ao Estatuto da Carreira Docente e à avaliação dos docentes."
Qualquer mudança é bem-vinda depois do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues. "É um daqueles casos em que a mudança, só por si, já é um ganho. Por isso, e pelas suas características pessoais, Isabel Alçada foi acolhida com uma expectativa positiva pela generalidade dos docentes", constata o professor Paulo Guinote, autor do blogue "A Educação do Meu Umbigo". O que se pode esperar de Isabel Alçada? "Mudanças importantes na substância das políticas educativas relacionadas com os professores e a organização das escolas públicas, assim como no estilo de relacionamento com os parceiros (sindicatos, mas não só) e na forma de comunicar com a opinião pública, prescindindo do tom acintoso e habilidades estatísticas em que a sua antecessora se distinguiu", comenta.
A primeira avaliação será feita após os primeiros actos práticos. "Neste contexto, é muito importante saber se é reaberto o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente e a atitude perante o modelo de avaliação dos docentes." Paulo Guinote suspeita que os secretários de Estado da Educação não foram escolhas pessoais da nova ministra, "antes parecendo o resultado de uma remodelação na continuidade do anterior Governo". "Tudo indica que, mais do que a ministra, que será o rosto sorridente para o exterior, serão os secretários de Estado a assumir a condução de muitos dos dossiers mais polémicos desta área da governação. O que não é um augúrio especialmente bom", repara. |
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