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Notícias
Aqui há (muito) gato!
Andreia Lobo| 2009-11-06
Na Escola Básica 2+3 e Secundária Santos Simões, em Guimarães, há gatos pretos, cinzentos, malhados e tigres. Alguns estão colados nas portas das salas e nas paredes, mas esses são apenas para a decoração do Dia das Bruxas.
Mudaram de instalações e a população de gatos que rondava a antiga escola secundária por lá ficou indiferente à demolição do edifício. A boa vontade de não abandonar e, sobretudo, continuar a alimentar aqueles vigilantes especiais da escola foi a força motora da ideia de construir um gatil nas novas instalações da Escola Básica 2+3 e Secundária Santos Simões, em Guimarães. Após três anos de imenso trabalho, em Maio de 2009 surgia o Gatil Simãozinho, um projecto pedagógico único no país. O espaço contempla uma casa especial de paredes de madeira acondicionada para ser fresca no Verão e quente no Inverno. Um terraço onde os gatos se recreiam. E um jardim arborizado. Uma concepção de uma arquitecta local, também fã de felinos.

Não há cheiros, nem desarrumação. A saúde e higiene dos 30 habitantes do gatil são prioridades. Todos os animais estão vacinados e esterilizados. A veterinária municipal colabora para tal. No intervalo a casa dos gatos enche-se de alunos que aproveitam todos os minutos para lhes passarem a mão no pêlo. "Estou a ouvir muito barulho", avisa Luísa Veiga, a professora que nunca se esqueceu de levar comida da cantina aos gatos pioneiros, quando estes ainda habitavam os escombros da antiga escola. "Já sabem que assim os gatinhos stressam..."

Agora funciona tudo como deve. Mas construir um gatil dentro de um estabelecimento de ensino foi "trabalhoso", garante Luísa Veiga, que, além de ensinar Português e Francês é também a coordenadora do projecto. "Bati à porta de muitas empresas." Imagina-se o trabalho de "pedinchar" apoio financeiro em altura de crise e sobretudo para um projecto educativo tão "fora do comum". Mas já muito conhecido para lá das barreiras vimaranenses.

No placard junto da biblioteca algumas notícias ilustram o interesse que o gatil tem despertado. Mais do que as fotocópias das páginas da imprensa, são os e-mails de encorajamento ao projecto de cidadãos preocupados com a defesa dos direitos dos animais que fazem o orgulho de todos: pais, professores, funcionários e alunos. "É um serviço de interesse público que a escola presta também à comunidade abrigando e tratando animais que estariam abandonados e espalhados pela cidade", garante a professora.

De um grupo de senhoras da Amadora, também amantes dos felinos, o gatil recebeu um gentil donativo de 38 euros. A quem contacta a escola via correio electrónico ou carta, os alunos que fazem parte do "clube" dos gatos respondem com igual carinho e dedicação, contando as peripécias do dia-a-dia do gatil e enviando fotos dos protagonistas. A isto, sublinha a professora Luísa Veiga, chama-se "cidadania".

"O grande objectivo deste projecto pedagógico é formar cidadãos sensíveis ao respeito pelos direitos dos animais", resume Luísa Veiga. A certeza de que os mimos e cuidados que os gatos recebem dos alunos, na maioria na casa dos 12 anos, leva a professora a acreditar piamente que "nenhum destes meninos e meninas há-de abandonar um animal".

Cada gato tem uma história de abandono, alguns de maus-tratos. Luana esteve um mês dentro de um armário porque os donos a abandonaram ao fim de oito anos de convivência. Pantufas chegou ao gatil com as almofadas das patas queimadas. Negrito esteve cinco meses numa jaula. "Todos têm histórias de vida muito tristes", lamenta Luísa Veiga. Todos menos uma gata a quem a dona não abandonou. Perdeu a casa e no quarto onde vive não lhe é permitido abrigar a companheira de estimação. Por isso até que a sua dona tenha um tecto, a bichana fica ao cuidado dos meninos, no gatil. "A senhora vem ver a gata e há uns tempos dei com ela a chorar abraçada aos meninos enquanto eles lhe garantiam que tratariam bem dela", recorda a professora, lembrando talvez aos agentes educadores mais formalistas: "Isto também é educação!"

"Gatices"

Maria está refastelada no puff de palhinha. Até que duas meninas lhe ocupam o lugar e a põem no seu colo. "Eu sou a mãe dela, ela é a madrinha", esclarece Mariana apontando para Nádia. "Só os gatos que ainda não se adaptaram à nova casa é que não têm nome", explica Mafalda, de 12 anos. O desejo proibido de ter gatos em casa encontra satisfação no gatil da escola. Não é caso único. Muitos dos alunos aspiram por um bichano a quem mimar. Por isso no gatil há duas soluções para oficializar os laços entre meninos e felinos: adopção e apadrinhamento. Ainda que, no que toca à adopção, diz a professora que "às vezes eles choram e não deixam os gatos serem adoptados". A professora respeita o afecto dos tratadores. Afinal eles são responsáveis pelos bichanos, na forma de padrinhos e madrinhas, pelo que têm uma ou mais palavras a dizer.

Sobre o trabalho que os membros do "clube" têm com os animais, Sara, de 12 anos, e madrinha da Kitty, responde: "É assim, fazemos festinhas, cuidamos da higiene, colaboramos na ajuda à professora quando ela precisa!" Aos sábados de manhã, a agenda do gatil marca a "limpeza geral e aprofundada", dizem os meninos. No último sábado, Rui, de 12 anos, foi um dos alunos que não falaram ao pedido SOS da professora que, sem carro, se viu impedida de ir ao gatil cumprir o ritual matinal de higiene. "Tirámos o cocó, mudámos a areia", elucida o Rui. O trabalho dele e de outros colegas nesse dia, sem tutela, deixou a professora orgulhosa. "Fizeram tudo como eu faço, tal e qual!"

Difícil, é voltar a pousar os felinos no chão, pegar nas mochilas e retomar as aulas. A mãe de Maria deixa-se comover. "Professora, ela não quer sair do colo..." Mas há regras. E entre as mais temidas pelos alunos estão as que proíbem as entradas no gatil em caso de más notas ou comportamentos indevidos. Fora isso a entrada é garantia de um intervalo bem passado e de uma grande lição de humanidade. Pelo menos é o que espera Luísa Veiga. Indiferente às preocupações da sua mãe, Maria fica a espreguiçar no puff. E assim vai permanecer sonolenta, a dormitar uns bons 45 minutos, enquanto a sua mãe e madrinha continuarem na sala de aula a aprender outras lições também elas importantes.
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COMENTÁRIOS
Gostei imenso
Muitos parabéns por esta iniciativa tão bonita. Pena que muitas escolas não tentem seguir o exemplo! Embora os custos sejam talvez entrave para alguns de dar andamento a um projecto tão inovador.
Maria de Lurdes  Marques Martins, Vila Nova de Gaia
19.11.2009
Parabéns!
Os meus parabéns à professora e a todos os meninos que tornaram um sonho em realidade! Obrigado por serem assim!
Maria Assunção Baptista, Sarilhos Grandes
07.11.2009
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