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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
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Entrevistas
Maria de Fátima Figueiredo: "Os professores não se sentem gratificados"
Teresa Sousa| 2008-04-22
Os professores não estão satisfeitos com a profissão. A máxima, de tão batida, parece chavão retirado do senso comum. Mas foi medida, tratada e validada por Maria de Fátima Figueiredo na investigação "Avaliação de satisfação com a profissão em professores do ensino secundário".
Os professores de línguas mostram graus de satisfação menores do que os de expressões e os homens têm graus de satisfação superiores às mulheres. Os dados foram recolhidos por Maria de Fátima Figueiredo, no âmbito da Tese de Mestrado em Didáctica e Organização das Instituições Educativas da Universidade de Sevilha, entre finais de 2006 e o ano de 2007. A investigação baseou-se numa amostra de 210 professores do Ensino Secundário, em sete locais diferentes de Portugal, sendo que 39% dos inquiridos estavam a leccionar no concelho de Almada. Setenta e três por cento dos inquiridos são do sexo feminino, a média das idades é de 40 anos, tratando-se de professores, em média, com 17 anos de serviço.

EDUCARE.PT: No estudo que realizou conclui-se que o nível de satisfação geral dos professores relativamente à profissão é baixo. Que factores podem contribuir para esse grau de insatisfação?
Maria de Fátima Figueiredo: São factores de ordem psicológica e psico-relacional: os professores não se sentem gratificados pelos intervenientes na sua profissão (políticos, pais, alunos). Em consequência, fazem juízos negativos, ou seja, não se sentem envolvidos emocionalmente com a profissão e com a instituição-escola. Ora, sendo a escola uma organização de trabalho também específica e especial, porque cresce e desenvolve-se, esta profissão deve ser desempenhada com elevado empenhamento e com reforçado e contínuo desenvolvimento pessoal, para aprender e para ensinar novos saberes.

E: A investigação avaliou, por um lado, o bem-estar subjectivo (a vida da pessoa, o facto de os professores estarem, muitas vezes, deslocados da família) e, por outro, a satisfação profissional. Há alguma relação directa entre estas duas dimensões?
MFF:
Há. O bem-estar subjectivo com a vida é um constructo psicorrelacional, isto é, de dimensões inter-relacionadas, que são tanto psicológicas como relacionais. Este constructo foi definido como agrupando em si as dimensões de satisfação com a vida e de emoções positivas. Mas também entram aqui emoções negativas, pois as alegrias e as boas sensações contam, ora com tristezas passadas, ora com a certeza da sua existência transversalmente à vida.

E: Na sua opinião, como é que se explica que os professores com menos anos de carreira sejam os mais satisfeitos?
MFF: Com menos anos de carreira há menos tempo para fazer juízos negativos sobre a carreira; o envolvimento emocional com a carreira prende-se com desejos e ambições ainda não concretizados completamente na prática, portanto ainda não recheados de desilusões presentes e efectivas. Os jovens professores mantêm a essência do substrato relacional da sua profissão em destaque em relação inversa com o passar do tempo de desempenho profissional.

E: Os professores parecem, de uma forma geral, desiludidos com o baixo reconhecimento a que a profissão está dotada. Este aspecto está directamente relacionado com a motivação?
MFF:
O reconhecimento dos outros, sejam eles pares profissionais ou outros, é uma necessidade básica humana que engloba sentimentos de empatia e valorização por aqueles que avaliam, compreendem e necessitam do nosso desempenho. Os sentimentos envolvidos no processo de reconhecimento são necessários ao desenvolvimento harmonioso de cada indivíduo e à sua boa integração social, por isso é que dizemos que esta é uma dimensão de influência relacional mas também psicológica.

E: Além disso, os professores inquiridos valorizam a escola enquanto instituição. Significa isto que a profissão docente é percepcionada como um factor de valorização social?
MFF: A instituição escola é uma instituição de trabalho especial pois cresce com os seus clientes, os alunos, modifica-se com eles pois representa o saber e as mudanças que o conhecimento implica. Logo, os seus profissionais, os professores, envolvidos neste tecido socioprofissional específico sentem-se valorizados pela importância vital e inquestionável que a escola tem no crescimento das sociedades. Actualmente, e perante níveis de bem-estar e de satisfação profissional tão negativos, reconhece-se dificuldade em manter essa valorização social.

E: A desmotivação e falta de interesse na implicação dos professores com a sua profissão é referenciada inúmeras vezes no estudo. Quais são os principais factores responsáveis por esta atitude?
MFF:
A desmotivação e a falta de interesse dos professores apresenta-se-nos nos resultados do estudo porque os professores revelam emoções negativas e a quase inexistência de situações de gratificação ou envolvimento total com a prática docente. Assim, sentir bem-estar é ter satisfações emocionais, de prazer e de sentimentos de gratificação e envolvimento total com a profissão e não é o que os professores sentem.
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COMENTÁRIOS
Ficamos na mesma...
No que diz respeito à última questão, é impressão minha ou não se respondeu aos factores que levam ao mau-estar dos professores?
Elsa Pedrosa, Charneca da Caparica
24.04.2008
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