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Notícias
Famílias homossexuais na literatura infantil
Sara R. Oliveira| 2008-02-15
Casais de pessoas do mesmo sexo em livros para crianças. Técnicos afirmam que abordar a diversidade familiar é inevitável e que pais e professores têm um papel importante na matéria.
"Maria, que traz um filho dentro da barriga, conta à sua filha a história da sua infância. Uma história simples, de uma criança feliz. O que torna este livro especial é o facto de Maria ter dois pais: o Pedro e o Paulo". É desta forma que O livro do Pedro, da escritora e ilustradora Manuela Bacelar, é apresentado. A obra acaba de ser lançada e é uma estreia. A literatura portuguesa infantil começa a abordar a diversidade da parentalidade. A autora explica como tudo aconteceu. "A ideia do livro surgiu-me como as ideias dos outros livros: de situações concretas que vou conhecendo", revela. "A história é sobre uma família que tem uma vida normal, perfeitamente inserida e aceite pela sociedade". E acrescenta: "É um livro de afectos. É Natal e não há prendas. Há um grande abraço. São os anos da Maria e não há presentes. Há amigos, um piquenique e uma surpresa ao virar da página". A escritora escreve para um público abrangente, para crianças, pais, agentes de ensino. "O meu atelier é o meu espaço de liberdade e não estou sujeita a decreto-lei", garante a autora de Bernardino, O meu pai e O meu avô.

O livro de Pedro aparece pouco depois de a Associação ILGA Portugal e o projecto editorial independente espanhol Eraseunavez.com. terem lançado no mercado nacional dois livros infantis que abordam a mesma temática. "A mamã Carlota disse-me que os meninos e as meninas crescem na barriga das mulheres. Essa é que me pareceu a maior mentira que já ouvi. Eu não caibo na barriga da mamã Carlota e na da mamã Ana ainda menos". A dúvida pertence a uma menina, personagem central De onde venho?. A história é do escritor e ilustrador espanhol Javier Termenón Delgado. "O João quer ser bombeiro para ajudar as pessoas! Gosto muito da farda dos bombeiros. Acho que vou apaixonar-me por ele", comenta o menino André que, juntamente com a Marta, entram no livro Por quem me apaixonarei?, de Wieland Pena e Roberto Maján.

O antropólogo Miguel Vale de Almeida apresentou os livros espanhóis e tem no currículo A escola do arco-íris, o primeiro conto português a abordar o assunto. "Nem se trata tanto de retratar a homossexualidade, trata-se de retratar fielmente a realidade, onde vários tipos de famílias - assim como de sexualidades - coexistem". O especialista ressalva que as obras literárias "não falam de sexo, falam de afectos e relações". "Não falam de nenhuma ruptura em relação a valores centrais, mas sim de formas variadas de adequação a eles. Se não estiverem preparadas será por outras razões que não o facto de haver referências a casais do mesmo sexo." Na sua opinião, a realidade de que falam os livros devia ser tratada nas escolas. "E aí é que está o problema. Exactamente como na questão da igualdade de género ou na promoção de atitudes não-racistas".

Será que os pais, numa sociedade maioritariamente heterossexual, estão preparados para ajudar os filhos a perceberem que há pessoas que se apaixonam por pessoas do mesmo sexo? "A maioria numérica não é argumento, tal como em democracia não o é - nela o que conta é justamente a defesa da liberdade e direitos das minorias. Poderá haver pais que não estão preparados, mas sobretudo há pais que nunca estarão preparados. A escola deve pesar isso, mas deve avançar em função de valores societais que não podem esperar pelo consenso." As leituras devem ser acompanhadas pelos adultos? "Não sei. Não o devem ser todas? Estas especificamente não têm qualquer elemento que ataque o carácter indefeso das crianças - não se trata nem de violência, nem de pornografia, nem de publicidade enganosa", responde.

"Esse incluir da diversidade neste tipo de literatura é perfeitamente inevitável e desejável", afirma o psiquiatra Júlio Machado Vaz. Contar histórias de pessoas que se apaixonam por outras do mesmo sexo é, no fundo, "a tradução de uma realidade com que as crianças se confrontam". Na opinião do sexólogo, não vale a pena esconder a realidade aos mais pequenos. O que Júlio Machado Vaz lamenta é que não tenha havido uma preparação atempada. Os adolescentes de hoje não tiveram a mesma oportunidade de ler essa literatura que agora está disponível aos mais novos. "O que lamento é essa lentidão e que as coisas não tenham sido harmoniosamente integradas." O médico refere-se a uma educação global. "Há aí buracos vazios, ocos, que estão a ser preenchidos com uma grande lentidão", aponta. "Havia outras coisas que já deviam ter preparado o terreno. Devia ter havido discussão do assunto de uma forma estruturada, o que não aconteceu", comenta. E a chaveta pais/professores é importantíssima na questão. "Os adultos de referência têm obrigação de estar preparados para responder às perguntas das crianças."

Isabel Alçada, escritora de livros infantis e que assumiu a coordenação do Plano Nacional de Leitura, prefere não comentar o assunto dos casais homossexuais em livros infantis por ainda não ter lido as obras e, portanto, não saber como o tema é abordado, para que faixas etárias se destinam, se são esclarecedoras dessa realidade. De qualquer forma, na sua opinião, "quando se conversa com crianças não há temas tabus". Os adultos devem, por isso, "esclarecer e não deformar a realidade" e os professores estar atentos para tirar as dúvidas dos mais pequenos que constantemente questionam o mundo.

"Valorizar e celebrar a diversidade"
Paulo Côrte-Real, da Direcção da ILGA Portugal, sublinha que os casais de pessoas do mesmo sexo existem no nosso país, "mas são sistematicamente invisibilizados na literatura infantil". Uma lacuna que a associação de defesa dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais pretendeu colmatar com o lançamento dos livros. "A literatura infantil em Portugal começou finalmente a ser dirigida a todas as famílias e a ser mais inclusiva." Na sua perspectiva, "as crianças são, em geral, muito menos homófobas do que as pessoas adultas, porque a homofobia lhes é ensinada gradualmente. E se é evidente que não há nada de problemático em relação a qualquer orientação sexual, a realidade é que muitas crianças continuam a aprender a homofobia na família, na escola, na televisão, na sociedade". "É muito importante que se possa pelo contrário educar contra a homofobia, promovendo a igualdade, o respeito pela diversidade e a convivência cidadã desde a infância. A nosso ver, a educação contra a homofobia insere-se aliás no âmbito de uma educação para a cidadania e não no âmbito da educação sexual - que, em todo o caso, também consideramos obviamente fundamental."

A escola assume um papel importante. "Nas escolas há já muitas crianças que são filhas de gays ou de lésbicas - e há também muitas crianças que quando crescerem se aperceberão de que são gays ou lésbicas. É fundamental não só dar a cada criança um retrato inclusivo da realidade como garantir que cada criança aprenderá a valorizar e celebrar a diversidade - nomeadamente a diversidade familiar", defende Paulo Côrte-Real. "Estes livros vêm dar resposta a todos os pais e todas as mães que sempre quiseram poder mostrar às suas filhas e aos seus filhos que existem muitos `tipos' de famílias, mas que o que é relevante é o afecto que (idealmente) as une."

Descobrir um mundo de possibilidades. "No livro De onde venho?, de Javier Termenón, percebe-se que a criança que está a tentar descobrir de onde vem - como todas as crianças - tem duas mães. Naturalmente que o afecto entre as suas mães não é nunca um `problema', tal como não o é na vida real para as muitas crianças que são filhas de casais de gays ou casais de lésbicas: trata-se afinal (e apenas) da família que a criança ama e na qual é amada", adianta o elemento da ILGA. "No Por quem me apaixonarei? de Wieland Pena e Roberto Maján, as duas crianças da história simplesmente se perguntam por quem se apaixonarão e a conclusão é... a dúvida. Trata-se de um livro que não oferece respostas e que é, por isso, o melhor contraponto à habitual imposição da expectativa universal de que cada criança crescerá para se tornar uma pessoa heterossexual". "Sabemos que essa expectativa é uma ficção - sabemos que a percentagem de gays e lésbicas é de resto muito significativa -, pelo que é fundamental que pais e mães preparem as suas filhas ou os seus filhos para as várias possibilidades", acrescenta.
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