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| Colocar os alunos com a mão na massa |
| Sara R. Oliveira| 2008-01-24 |
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| Paula Canha, professora de Biologia e Geologia, quebra a rotina das aulas com saídas de campo e actividades experimentais. O seu trabalho foi reconhecido com o Prémio Inovação. |
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Os que a conhecem dizem que é discreta e simples. Mas o seu trabalho não passou despercebido. Paula Canha, professora de Biologia e Geologia da Secundária Dr. Manuel Candeias Gonçalves, em Odemira, foi distinguida com o Prémio Inovação, instituído pelo Ministério da Educação. Na planificação das suas aulas, encontram-se saídas de campo, visitas de estudo, actividades experimentais, debates, apresentações orais, trabalhos em grupo, construção de modelos, resolução de exercícios. A teoria é importante, a prática é fundamental. "De acordo com a matéria, procuro sempre encontrar alguma actividade que ponha os alunos com as mãos na massa", refere. "Os manuais apontam para algumas experiências simples e úteis, que podem e devem ser feitas nas aulas práticas, mas eu gosto de, mesmo numa aula teórica, introduzir alguma observação, alguma manipulação, que quebre o ritmo, que 'acorde' os alunos, que os faça mexer".
Exemplos não faltam. "Ir a uma empresa agrícola ver como fazem luta integrada de pragas, dar um passeio à volta da escola para ver o processo de formação do solo, ver ao vivo em laboratório a reprodução de um verme, pesquisar na Internet as últimas novidades na investigação espacial ou fazer um debate sobre as implicações éticas da clonagem", adianta. Muitas vezes, no caminho de casa para a escola, pára para recolher coisas para mostrar nas aulas. "Para mim, é importante diversificar as formas de aprender, que são muitas. Um recurso que se tem mostrado muito útil é a utilização da Plataforma de Aprendizagem Moodle." E tem sido fácil arranjar pretextos para passar da teoria à prática. "Como não seguir o caminho do nosso lixo doméstico até ao aterro sanitário quando no 12.º ano se ensina o tratamento de resíduos?". "Ou como não ir às extraordinárias falésias da nossa costa quando se dão as deformações das rochas no 11.º ano?".
O Clube de Ciências da escola é a menina dos seus olhos. Um espaço que se centra em três actividades: saídas de campo para o contacto com a Natureza; iniciativas com crianças, em que os alunos são monitores dos mais novos; e verdadeiros trabalhos de investigação em Ciência. No meio de tudo isto, há um requisito que não pode faltar, ou seja, uma boa relação com os alunos. "Eles sabem distinguir quando um professor vai para a aula com gosto e entusiasmo e percebem bem quando temos prazer em estar com eles. E correspondem da mesma forma." No início do ano lectivo, Paula Canha dá a conhecer o Clube de Ciências. Depois disso, convoca-se uma reunião com os candidatos a membros do clube, traça-se o plano de actividades, constituem-se grupos de trabalho e nomeiam-se os responsáveis. Não há horas obrigatórias de trabalho. "Talvez um dos trunfos mais fortes deste clube é a sua enorme abertura ao exterior, porque cada projecto envolve sempre um tutor de uma universidade ou instituto de investigação, a câmara municipal e empresas ou entidades que, de alguma forma, se relacionam com o tema do projecto", explica. "Aprendemos muito mais e vamos muito mais longe, com a ajuda de diferentes pessoas ligadas à temática dos projectos", acrescenta.
Há mais. Paula Canha orientou vários projectos que foram distinguidos a nível nacional e internacional. Entre eles está "O declínio do montado - o caso do sobreiro e da azinheira" que venceu o primeiro prémio nacional do 18.º Concurso Europeu para Jovens Cientistas" e o terceiro prémio da Intel/Feira Internacional de Ciência e Engenharia nos Estados Unidos, em 2007. "São tantas as histórias que fazem de cada projecto uma experiência inesquecível." Paula Canha recorda os momentos passados à volta da fogueira no meio do montado alentejano, o tempo usado a capturar anfíbios nas lagoas, as conversas com os agricultores, a sessão improvisada de ioga para afastar o stress aos alunos antes das entrevistas com o júri, os serões passados a treinar o inglês para a defesa dos projectos. Sacrifícios pessoais sempre compensados.
Há uma aula ideal na sua cabeça. "É aquela em que os alunos não dão pelo passar do tempo e quando mando arrumar eles dizem: 'já?'". Aulas de uma grande exigência. "Talvez a maior ameaça a uma prática centrada na qualidade das aulas seja a multiplicidade de reuniões que existem nas escolas e a quantidade de 'papelada' que temos de preencher. Depois de seis horas de aulas, uma reunião de duas horas e a elaboração de um qualquer plano, quem tem energia e coragem para roubar à família o pouco tempo que sobra no fim do dia?", questiona. "De qualquer forma, a avaliação dos docentes não está centrada na qualidade das aulas, pelo que se compreende que esse aspecto continue a não ser prioritário para os professores, o que é uma pena", repara. "Mas compreendo que as pessoas não tenham resistência para tanto. Para fazer o que faço, tenho de trabalhar muito mais horas do que é razoável", remata. Foi a escola onde lecciona que sugeriu o seu nome para o prémio. "Nas férias vem para a escola com os alunos e fazem muita investigação de campo", revela Natália Amaral, do conselho executivo da Secundária de Odemira. "É uma pessoa muito humilde e que faz um trabalho muito importante com os alunos", acrescenta.
O Prémio Inovação trouxe-lhe mais responsabilidade e contactos. "Tenho recebido recursos óptimos para trabalhar com os alunos, de pessoas que não conheço, mas que me enviam publicações e outros materiais - é espantosa a generosidade destes cientistas." Os alunos motivam-se mais num trabalho que é reconhecido, os colegas de profissão pedem-lhe ajuda e conselhos. Paula Canha começou a dar aulas "por acidente". Hoje sente a escola como a sua segunda casa. Na altura de optar entre o projecto de aquacultura, que tinha lançado em Milfontes, e a docência não conseguiu virar as costas aos que precisam de aprender. "Tenho o prazer de fazer aquilo que gosto e nada paga o facto de nos levantarmos cada manhã com vontade de ir trabalhar. Impressiona-me o facto de a maioria das pessoas ansiar pelo fim-de-semana como se apenas esses dias valessem a pena! É triste pensar que só podemos ser felizes 30% dos dias da nossa vida", comenta.
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| COMENTÁRIOS |
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A grande diferença....
¿Há pessoas que nos falam e não ouvimos. Há outras que nos tocam e não sentimos. Mas há aquelas que simplesmente vivem e nos tocam para sempre¿¿
Felizmente eu sei distinguir um BOM professor, de um Razoável e de um Mau... o que acontece é que os que existem menos SÃO OS GRANDES PROFESSORES ONDE A GRANDEZA NÃO CONSISTE EM RECEBER HONRAS, MAS EM MERECÊ-LAS...
Cláudia Matos, Bicos
29.01.2008
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Bons e maus
É pena os bons professores da Inês e da Cláudia não as terem ensinado a ver para além do "bom" e do "mau". A vida tem muitas cores, tal como o ensino tem muitos professores. Todos são bons numas coisas e menos bons noutras, tal como também não há alunos perfeitos. Mas a aprendizagem fundamental na escola é essa: aprendermos uns com os outros. Podem imaginar o professor ideal, mas a realidade é que um ensino para todos precisa de muitos e variados professores. A quem se dá pouco e se exige muito.
António Duarte, Coimbra
29.01.2008
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pois é.....
Esta professora é um exemplo daquilo que todos os outros professores deveriam fazer e não fazem. Os outros, como alguém aqui já disse, andam pela escola (e pela vida) a pensar no fim (no fim-de-semana, na reforma, etc.) e revoltam-se muito contra tudo e contra todos que tenham a ousadia de querer mexer no seu status quo. É pena.
ines bianchi esmail,
29.01.2008
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MÉRITO
Felizmente tive a sorte e o privilégio de ter sido aluna desta professora e é com muito orgulho que escrevo(quem me dera que todos os professores fossem como ela tenho a certeza absoluta que o ensino no nosso país seria muito melhor), pois para ela o mais importante são os alunos não estes prémios, estes prémios são fruto de tudo aquilo que ela fez... e irá continuar a fazer. PORQUE ELA É ÚNICA, OBRIGADA POR ME TERES AJUDADO A SER A PROFISSIONAL QUE SOU HOJE...PARA MIM TU ÉS E SERÁS A MELHOR PROFESSORA DO MUNDO!!!
Cláudia Matos, Bicos
28.01.2008
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Boa professora, mas...
Há uma carantonha ali por trás que não engana ninguém. Estes professores dedicam-se tanto ao seu trabalho que se calhar nem se apercebem que ao candidatarem-se a estes prémios estão a promover uma política educativa que representa justamente a negação de um ensino de qualidade. Peço desculpa se ofendo as boas almas politicamente correctas, mas um colega que aceita prémios desta gente nunca será para mim exemplo de um bom professor.
António Duarte, Coimbra
28.01.2008
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Parabéns
Infelizmente, muitos professores se convertem em burocratas da escola. Estão exercendo a profissão de estar ali e nada mais. Sem perfume nem sabor. Sem encontro nem encanto. Apenas ali, munidos de um programa determinado e esperando o fim, já no começo. Tristes mulheres e homens que embarcam na profissão errada e lá permanecem aguardando a miúda aposentadoria. Não são maus. Apenas não são educadores.
Há aqueles que educam desde os primeiros raios da aprendizagem. Preparam-se para a celebração do saber e do sabor ¿ palavras com a mesma origem. Lançam redes em busca de curiosidades, surpreendem e permitem surpreender; ensinam e aprendem com a mesma tenacidade. Estão ali, em uma sala de aula, desnudos de arrogância e ávidos de vida. Não temem a inquietação das crianças e dos jovens. Não negligenciam o conteúdo, mas valorizam os gestos. Gestos ¿ é disso que mais nos lembramos dos nossos mestres que passaram. E que permaneceram.
Cláudia Matos, Bicos
25.01.2008
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parabéns
Aqui se prova que a mudança na qualidade da educação ocorre na sala de aula e não nas reformas Top-down, efectuadas pelos inúmeros governos. Isso não significa que não sejam feitas, porque, sejamos francos, se esperarmos pela iniciativa da maioria dos professores nunca mais saímos da cepa torta, mas a inovação e a melhoria passa essencialmente pelas metodologias utliizadas na sala de aula. Esta colega foi premiada...e quantos mais mereciam um prémio igual? Quantos continuam no anonimato porque a avaliação do desempenho docente é obsoleta?
Miguel Gameiro Silva, Ponta delgada
24.01.2008
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