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A intervenção precoce, mesmo sem um diagnóstico completamente definido, é fundamental nas crianças com Perturbações do Espectro Autista (PEA). Como aconteceu com o Rafael, um menino que entrou com três anos e meio para o projecto "Crescer Diferente - Um Direito", da Unidade de Avaliação do Desenvolvimento e Intervenção Precoce (UADIP) e da Associação Portuguesa para a Protecção dos Deficientes Autistas (APPDA).
O Rafael foi um dos primeiros seis meninos a fazerem parte do programa de intervenção precoce em crianças com PEA, partindo do modelo "DIR". Basicamente, este modelo consiste em sessões diárias, em que se abrem e fecham ciclos de comunicação, levando a criança a exprimir-se. "Neste modelo não adianta tanto o diagnóstico, vamos é procurar evitar o que incomoda", explicou ao EDUCARE.PT Tânia, a mãe do Rafael, à margem do seminário "Crescer Diferente - Um Direito", que ontem terminou no Porto.
Se o que incomoda são os sons, como é o caso do Rafael, então a ideia é descobrir essa hipersensibilidade, enquanto que, por outro lado, se há uma hipossensibilidade ao tacto, é importante aumentar a pressão no contacto físico. Ao fim de três anos de trabalho o projecto chega ao fim formalmente, embora se estejam a estudar formas de lhe dar continuidade. "É necessário que continue porque os pais, antes de terem apoio, sentem-se desorientados", argumentou a mãe do Rafael. A melhor prova disso é que, tendo começado com meia dúzia de crianças, o "Ser Criança" chegou ao fim com cerca de vinte casos de intervenção.
Se os pais se sentem desorientados, também os profissionais (técnicos educativos, terapeutas, médicos ou psicólogos) careciam de formação na área. Foi o caso de Vânia Peixoto, terapeuta da fala da UADIP, que integrou o programa logo desde o início. "Como já tinha tido contacto com crianças com PEA, senti necessidade de saber mais sobre as formas de intervenção", declarou. Ao longo dos últimos três anos, o projecto formou profissionais, lançou estratégias de ligação com infantários ou escolas com crianças autistas e deu apoio aos pais.
Intervenção precoce no Hospital D. Estefânia
Um pouco à semelhança deste projecto, também em Lisboa, no Hospital D. Estefânia, a Associação de Apoio à Unidade da Primeira Infância traçou um programa de intervenção partindo do DIR ou "Floor Time". O projecto teve início em 1997 e, segundo um balanço realizado em Janeiro deste ano, acolheu 22 crianças com PEA, 12 das quais consideradas severas. Dos 18 casos avaliados, seis registaram um desenvolvimento pobre, 8 razoável e quatro bom ou muito bom.
"Tudo o que a criança indicia tem que ser interpretado", explicou Pedro Caldeira, do Hospital D. Estefânia, convidado para participar no seminário. "As rejeições não são rejeições, mas respostas e é fundamental expandir a comunicação, falar de coisas erradas para que eles nos possam corrigir", afirmou.
Estes projectos são alguns exemplos das pontes que se vão lançando entre os pais, educadores e técnicos para compreender uma perturbação sobre a qual a investigação ainda não deu muitas respostas.
O autismo é uma perturbação do desenvolvimento global, sobre a qual se conhecem os sintomas genéricos, mas não as causas biológicas. Há alguns sinais comuns determinantes para o diagnóstico: é afectada a comunicação com o outro, a interacção e a criatividade.
De resto, não é possível identificar um padrão comportamental ou uma intervenção geral. Cada caso é um caso. Ainda assim, há alguns sinais de alarme que se vão manifestando desde os primeiros meses: isolamento, ausência de jogos de imitação (como fazer cu-cu, dizer adeus...), ausência do jogo do faz-de-conta, ausência de atenção partilhada.
A variedade de sintomas e as doenças que estão associadas ao autismo (epilepsia, surdez ou até mesmo uma doença mental) dificultam muito um diagnóstico precoce seguro, mas, graças a modelos como o DIR, é possível entrar no mundo destes meninos, desenvolvendo competências, mesmo antes de se fazer o diagnóstico completo de cada caso específico. |